
Senador questiona resultado da eleição vencida por Lula, mas suas alegações são contrariadas por dados oficiais e observadores internacionais. Na mesma entrevista, afirma que deixou o Brasil por temer a prisão e nega ter recebido ajuda de governos para chegar aos Estados Unidos.
A entrevista começa com uma manchete contundente, “Como Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil? ‘Levarei isso para o túmulo’, diz ele”. A jornalista correspondente do jornal americano Ana Ionova foi precisa, e confrontou o candidato derrotado em solo americano.
Flávio Bolsonaro insiste em colocar sob suspeita a eleição que perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista de 75 minutos ao The New York Times, publicada nesta sexta-feira (6), o senador voltou a falar em fraude eleitoral, questionou a atuação da Justiça e levantou suspeitas sobre as urnas eletrônicas, mas não apresentou provas que sustentem suas acusações.
“Perdi para o sistema”, afirmou ao jornal americano. A frase resume a versão que Flávio tenta sustentar depois da derrota nas urnas, apesar de os dados oficiais e as verificações de observadores internacionais não confirmarem as irregularidades que ele aponta.
A reportagem também confrontou as alegações do senador com informações que enfraquecem sua narrativa. A diferença entre Lula e Flávio foi de 4,4 milhões de votos. A extensão do horário de votação, uma das decisões questionadas pelo parlamentar, afetou cerca de 34 mil votos, segundo as autoridades eleitorais — e havia sido solicitada pelos dois candidatos.
Na mesma entrevista, Flávio contou como deixou o Brasil depois da derrota e afirmou que organizou sozinho a viagem aos Estados Unidos. A versão, porém, contrasta com informações obtidas pelo próprio New York Times: autoridades americanas disseram ao jornal que um integrante da Casa Branca providenciou o avião que o levou a Miami e que sua entrada no país foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump.
“Foi tudo obra minha”, declarou o senador. Sobre os detalhes da viagem, acrescentou: “Vou levar esse segredo para o túmulo”.
Flávio insiste em fraude, mas números contradizem suas acusações
Durante a conversa com o jornal americano, Flávio ampliou as suspeitas sobre o processo eleitoral. Falou em possível adulteração de votos, questionou a extensão do horário de votação e retomou uma denúncia de suposta violação de segurança na sala-cofre onde ficam os computadores utilizados na apuração.
O senador, entretanto, não apresentou evidências que comprovassem suas acusações. O Tribunal Superior Eleitoral já havia desmentido a informação de que fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre. Observadores internacionais independentes também atestaram a integridade do processo eleitoral, e dezenas de países reconheceram o resultado.
Outro argumento de Flávio envolve a decisão de estender o horário de votação em algumas regiões. O que ele não destacou é que a medida havia sido solicitada tanto por sua campanha quanto pela de Lula, diante de dificuldades provocadas por chuvas intensas e atrasos no transporte de eleitores.
A decisão foi anunciada perto do encerramento da votação e causou confusão em algumas seções. Ainda assim, o impacto ficou limitado a aproximadamente 34 mil votos, segundo as autoridades eleitorais. A diferença final entre os candidatos foi de 4,4 milhões de votos.
Questionado sobre a falta de provas, Flávio reconheceu que suas alegações se baseiam em suspeitas. “Tenho minhas suspeitas”, afirmou. Em seguida, disse que ninguém poderia garantir com 100% de certeza que ele estava certo ou errado.
A insistência nas acusações lembra a estratégia adotada por Jair Bolsonaro após a derrota para Lula em 2022. Naquele ano, as alegações do então presidente mobilizaram apoiadores em frente a quartéis e alimentaram manifestações que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.
Desta vez, a reação foi diferente. Lula venceu por uma margem maior, lideranças importantes do PL reconheceram o resultado e poucos brasileiros foram às ruas contestar a eleição.
“Já sei que o resultado final será minha prisão”, diz senador
A saída do Brasil também foi tema central da entrevista. Flávio afirmou que decidiu deixar o país na manhã seguinte à derrota eleitoral, quando recebeu a informação de que teria 24 horas para entregar os passaportes às autoridades.
Segundo seu relato, ele deixava o condomínio onde o pai cumpre prisão domiciliar quando foi abordado. Antes de se separarem, Jair Bolsonaro teria chamado o filho para uma conversa reservada. Emocionado, perguntou se Flávio já sabia o que aconteceria dali em diante.
O senador afirma que respondeu que estava preparado e sabia o que precisava fazer. Os dois, segundo ele, não chegaram a conversar diretamente sobre um plano para deixar o país.
Poucas horas depois, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que entregaria os documentos e que nunca havia pensado em sair do Brasil. Também prometeu liderar a oposição. Cerca de 42 horas depois, apareceu em Miami.
Na entrevista, justificou a decisão dizendo que já considerava inevitável uma condenação. “Já sei que o resultado final será minha prisão”, declarou.
Flávio é alvo de investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, mas não foi formalmente acusado de nenhum crime, segundo a reportagem. A situação poderá mudar no início de 2027, quando termina seu mandato no Senado e ele perde a imunidade parlamentar.
O senador se declarou inocente e acusou o Judiciário brasileiro de agir por motivação política. Também voltou a criticar o ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pela condenação de seu pai por tentativa de golpe após a derrota nas eleições de 2022.
Casa Branca teria organizado avião para levar Flávio a Miami
A versão de que Flávio organizou a viagem sem ajuda de governos é um dos pontos mais questionados pela reportagem.
Segundo autoridades americanas ouvidas pelo New York Times, um integrante da Casa Branca providenciou o avião que levou o senador a Miami. A entrada nos Estados Unidos também teria sido autorizada diretamente por Donald Trump.
O trajeto passou pelo Equador e pela Argentina. Neste último país, um dos principais assessores do presidente Javier Milei encontrou Flávio no aeroporto.
Apesar dessas informações, o senador negou ter recebido ajuda governamental. Disse que a decisão de partir foi tomada espontaneamente com a mulher e que, no máximo, contou com o incentivo de amigos que vivem no exterior.
Flávio, a mulher e as duas filhas receberam autorização para permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano, por meio de um status migratório normalmente concedido em situações humanitárias.
Senador agradece a Trump e evita responder sobre pressão contra o Brasil
Mesmo diante das informações sobre a participação de integrantes do governo americano em sua viagem, Flávio evitou críticas a Trump. O presidente dos Estados Unidos não reconheceu formalmente a vitória de Lula e chegou a classificar a eleição brasileira como “estranha”, mas não declarou quem venceu.
Para o senador, Trump agiu corretamente ao não tomar partido. Flávio agradeceu ao republicano por permitir sua permanência nos Estados Unidos.
A equipe do parlamentar ainda espera conseguir um encontro com o presidente americano durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Mar-a-Lago. Isso apesar de Trump ter afirmado, na semana anterior, que não tinha planos de se reunir com o brasileiro.
Questionado sobre a possibilidade de pressionar o governo americano a adotar novas medidas contra o Brasil, Flávio evitou responder diretamente.
O contexto envolve medidas anteriores da administração Trump contra o país. O governo americano utilizou tarifas e sanções como forma de pressionar o Brasil a abandonar o processo judicial contra Jair Bolsonaro. O Departamento de Estado também classificou as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Flávio promete voltar à disputa eleitoral
Mesmo nos Estados Unidos, o senador afirma que pretende continuar atuando na política brasileira. Disse que vai apoiar aliados que defendem pautas como a redução da maioridade penal e a anistia para o pai e os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Ele também pretende contestar judicialmente a vitória de Lula, embora reconheça que as chances de sucesso são pequenas.
A família ainda não definiu onde vai morar. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, vive no Texas e recebeu recentemente autorização de residência permanente, conhecida como green card. Paulo Figueiredo, aliado próximo da família, defendeu a Flórida como uma possível base para os Bolsonaro.
Flávio diz que espera que a permanência nos Estados Unidos seja temporária. “Vou precisar seguir com minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto”, afirmou.
Sobre o futuro político, não deixou dúvidas: se houver uma nova eleição, pretende disputar novamente.
Há algo mais grave nessa entrevista do que a insistência de Flávio Bolsonaro em não aceitar a derrota. O senador tenta sustentar uma acusação de fraude sem provas, enquanto os dados eleitorais e as verificações independentes apontam em outra direção. Não se trata de uma divergência política comum, nem de um direito de oposição que possa ser confundido com licença para deslegitimar as instituições. Democracia pressupõe disputa, crítica e alternância de poder — mas também exige respeito ao resultado das urnas. Quem perde uma eleição pode continuar fazendo política; o que não pode é fabricar suspeitas para tentar transformar a própria derrota em uma fraude delirante de uma família com histórico de ataques e golpe contra o estado democrático de direito.
Flávio Bolsonaro colocou em xeque não apenas o próprio futuro político, mas também a capacidade de articulação do clã que leva o sobrenome da família. Com Jair Bolsonaro preso, Eduardo condenado e foragido nos Estados Unidos, e Flávio fora do país, o núcleo familiar que comandou a extrema direita brasileira enfrenta um momento de fragilidade e divisão. A crise se aprofunda com o possível afastamento de Michelle Bolsonaro do PL, em meio às articulações para sua filiação ao Republicanos, e com outros aliados que vêm se distanciando cada vez mais da marca bolsonarista.
Isso não significa que o bolsonarismo deixará de existir. O movimento ainda conserva força institucional, com uma bancada expressiva no Senado e presença de aliados em governos estaduais. Mas seu futuro dependerá da capacidade de reorganização do grupo e, sobretudo, dos próximos movimentos do Centrão. A articulação desse bloco para reduzir o espaço político do PL pode aprofundar o isolamento dos bolsonaristas e expor uma contradição: mesmo com poder eleitoral e presença nas instituições, o grupo pode perder força justamente onde a política se decide — na construção de alianças e na disputa por influência.

