
O projeto de viabilização de uma “terceira via” no cenário político-eleitoral brasileiro fracassou quando do naufrágio da pré-candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) à Presidência da República nas eleições de outubro. Teoricamente ele seria uma opção natural e viável para substituir no páreo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), diante da inelegibilidade deste agravada pela decretação de sua prisão. Mas Tarcísio, que foi uma “invenção” do próprio Bolsonaro na campanha eleitoral de 2022 no maior colégio eleitoral do país, não teve carisma nem poder de mobilização para empalmar uma candidatura ao Planalto, ficando a reboque do seu padrinho, que o confinou aos limites territoriais de São Paulo onde disputará a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. Para muitos bolsonaristas, Tarcísio era tido como um nome moderado capaz de atrair eleitores fora da “bolha”, além de ter criado fama de administrador competente pela sua condição de técnico.
O movimento que se ensaiou em favor da indicação de Tarcísio esbarrou na obsessão do ex-presidente Jair Bolsonaro de ter um postulante com seu sobrenome, até para demonstrar que está vivo politicamente e que sua imagem sensibiliza mais diretamente as forças da direita conservadora e extremista empenhadas em obter, a todo custo, uma revanche contra o presidente Lula (PT), que logrou voltar ao poder depois de um breve ostracismo que passou pela prisão por 580 dias na carceragem da Polícia Federal em Curitiba por razões distintas.
ão é que o bolsonarismo tenha reciclado seu perfil, embora o “ungido” pelo “clã” como pré-candidato, senador Flávio Bolsonaro (PL) até procure mostrar que é diferente do pai, com um perfil mais cordato, flexível ao diálogo mesmo com setores que a direita detesta. A luta do bolsonarismo é para sobreviver como movimento político, depois da prisão do chefe e das trapalhadas que já custaram o mandato de um deputado federal da família, Eduardo, capacho declarado do governo de Donald Trump.
O fato é que outras pré-candidaturas lançadas no campo da direita, como as de Ronaldo Caiado e Romeu Zema, estancaram quando precisavam avançar na repercussão junto a segmentos da opinião pública identificados com as bandeiras temerárias do bolsonarismo. Surpreendentemente quem alcança boa cotação ainda é o senador Flávio Bolsonaro, porque é o espelho daquilo que muitos eleitores de direita querem: a derrota do lulopetismo, ainda que à custa de discursos vazios, sem propostas para beneficiar a população. Flávio não resiste a um debate mais aprofundado sobre as grandes questões nacionais, por mais que esteja sendo treinado nos bastidores para não fazer feio nos palanques. Seu vocabulário mistura uma repetição dos chavões contra a esquerda popularizados pelo falecido astrólogo Olavo de Carvalho, que se fez guru dos Bolsonaro durante o único mandato presidencial exercido por Jair. Mas Flávio é da confiança da “turma” e chega a posar de descontraído, como fez na dancinha que improvisou em João Pessoa num evento político na Domu’s Hall.
A polarização política-ideológica sobrevive no cenário institucional brasileiro porque, por incrível que pareça, foi o fato novo da conjuntura nacional na atual década, ainda que com uma roupagem desbotada que abriga ranços e velhos preconceitos sobre ideias conceituais acerca da família, de temas delicados como a legalização do aborto e a liberação de drogas. Como pano de fundo dessa orquestração ou algaravia em tambores batidos pela direita tupiniquim está a luta fisiológica pela conquista do poder como instrumento de “rapinagem” do erário público. Como ficou demonstrado, foi no único governo de Jair que “passou a boiada” de projetos elitistas como os que favoreciam o agronegócio e segmentos do empresariado da Faria Lima em São Paulo, enquanto os líderes do bolsonarismo faziam malabarismo para demonstrar que estavam do lado dos mais carentes.
Vamos combinar, também, que a tal polarização, nos termos em que está posta na realidade brasileira, não interessa apenas aos Bolsonaro ou às forças de direita, mas ao próprio presidente Lula, ao PT e a segmentos de esquerda ainda mobilizados pela influência do lulismo. O paroxismo político nunca havia chegado a níveis tão sectários como os de agora no quadro político-institucional. Basta lembrar que já tivemos polarizações do PT com o PSDB na história recente do país, que embora carregadas, em muitos momentos, de espetáculos de baixaria, apresentavam um grau maior de civilidade e de aceitação dos resultados das disputas.
ula derrotou Geraldo Alckmin quando este era tucano e o trouxe para seu lado no projeto que pavimentou sua volta ao Planalto em 2022. As relações entre Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso evoluíram para um clima de respeito entre o sociólogo da Sorbonne e o metalúrgico do ABC paulista. Não há, portanto, comparação possível com o nível de embates que se sucederam no cenário, castigando os ouvidos da sociedade pelo baixo calão de que têm se revestido. Lula tem sofrido derrotas no Congresso, onde não dispõe de maioria, mas será candidato para cumprir uma missão. É o único que pode derrotar a direita ou os Bolsonaro. O resto é conversa fiada dos “doutores em especulação”.
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