Sem o viés da polarização: o que diz a Bíblia sobre a participação de cristãos na política?

A decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proíbe a entrada de missões religiosas em aldeias indígenas isoladas, causou dura reação de setores cristãos e demonstrou mais uma vez um exemplo prático da interação entre os campos da religião e da política.

A decisão do ministro atende, de forma parcial,  um pedido feito pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), e foi classificada pelas bancadas Evangélica e Católica como “perseguição ideológica”, “movida claramente orientada por ideologia declaradamente anticristã”.

Trata-se de mais um exemplo cotidiano de que a velha ideia de que ‘política e religião’ não se misturam, ficou no passado. A decisão judicial provocou, naturalmente, reações não só de igrejas como também de partidos e movimentos missionários, numa interação cabal entre os campos político, religioso e jurídico.

É no contexto de conflitos como este, no entanto, que ressurge o questionamento: o que diz a bíblia sobre a participação de cristãos na política? E como esse entendimento se encaixa com a ideia de Estado Laico, estabelecido na Constituição Federal? Na próxima quinta (30), é considerado o Dia da Bíblia para uma parte dos cristãos, e por isso o Polêmica Paraíba traz, antecipadamente, esta discussão.

Política e religião se misturam, porém…

Para o teólogo e pastor protestante Bruno Pontes, ao contrário do que muitos pensam, política e religião ‘sempre de misturam’, já que a política é exercida por pessoas providas de crenças, que contribuem para o debate público. Ambos os setores, no entanto, exercem papéis diferentes no meio social, como defendia a Reforma Protestante com a separação de Estado e Igreja (Mateus 22:21).

“Para viver em sociedade, as pessoas precisam contribuir com suas crenças, com suas tradições e suas legislações, então é impossível desassociar. Porém, cada uma [instituição] tem um papel na sociedade, e o que precisa ser feito é um diálogo, e cada um faz a sua parte. Na política, a legislação, as leis e o cumprimento delas, e na religião, o cuidado e a emancipação do indivíduo como uma pessoa melhor”, observou.

A reivindicação é legítima

Muito embora não participe de atos considerados radicais, o cristão tem o direito de protestar quando seus direitos forem tolhidos (Atos 22,22). Nesse diapasão, decisões como a já mencionada, do ministro Luís Roberto Barroso, podem ser alvo de manifestações, mas somente se houver a supressão do direito ao exercício religioso, na avaliação de Bruno Pontes.

Um exemplo disso é se a decisão mencionada atingir a Paraíba, onde segundo o teólogo, a maioria das aldeias indígenas já se declara cristã. O mesmo se repete em outras comunidades pelo país.

“Essa interferência do STF em decidir sobre a obrigação de não se fazer um movimento religioso fere a liberdade dos indígenas de decidirem se querem ou não a visita de uma religião. É um momento de reflexão, e cabe ao Brasil entender isso, que esse ferimento constitucional pode gerar prejuízos de apoios humanitários, de saúde, de segurança, e outras coisas levadas pelas religiões às comunidades mais distantes”, disse.

Política pública, e não partidária

Considera a ‘bússola’ da vida cotidiana de um cristão, a Bíblia também traz orientações sobre a atuação pública da Igreja. Segundo Bruno Pontes, um desses conselhos sagrados é a oração pelas autoridades (1 Timóteo 2:1-2), em nome da pacificação de um povo. Nesse sentido, a atuação cristã deve ocorrer em nome de políticas públicas, e não partidárias.

“Assim como a Bíblia nos orienta a orar pelos líderes políticos, para apoiá-los, diante da importância das políticas públicas e não partidárias, o cristão precisa se posicionar a respeito de valores que são inegociáveis, então a participação do cristão deve ser um atributo que deve fazer com que a sociedade reconheça a justiça social, a paz e o diálogo como princípios soberanos, não apenas do cristianismo, mas de toda a humanidade”, acrescentou.

O papel do cristão num país polarizado 

Numa sociedade polarizada e cada vez mais intolerante, o cristão não deve se omitir, mas ser um agente de transformação social (Romanos 12,2). Por isso, de acordo com o teólogo Bruno Pontes, ele deve participar ativamente do debate público, com base em valores como a liberdade de expressão e de culto, sempre em busca do diálogo.

“Ele precisa sempre se posicionar, que ele seja firme e convicto, e que isso não destrua os valores do Reino e de tudo o que ele acredita, o que ele apregoa. O que não pode é ele se omitir, se esconder diante de um questionamento, de um posicionamento que vai transformar a vida das pessoas, o que acaba exigindo dele um conhecimento das ciências políticas, sociais, jurídicas, da medicina e do próprio comportamento das pessoas”, considerou.

Participação política e defesa de valores ocidentais

Para o historiador, teólogo e filósofo teólogo Vanderlan Paulo, filósofos atuais destacam a validade da presença dos cristãos no mundo da política.

O filósofo alemão Jurgen Habermas, filósofo da Escola de Frankfurt,  ressalta a necessidade da presença dos cristãos nos mais diversos espaços do mundo secular e destaca o compromisso dos cristãos em construir uma civilização e constantemente transformá-la.

“Desse modo, podemos dizer que os religiosos podem dialogar com o mundo da política e mesmo ocuparem espaços de representatividade considerando o bem comum e não apenas de seu seguimento religioso”, disse.

Confira entrevista com o teólogo a seguir:

Em alguma medida, política e religião se misturam?

A história nos ensina que a relação entre religião e política tornaram-se práticas constantes ao longo da formação do Ocidente. Desde os períodos iniciais do cristianismo, a adesão a fé no Ressuscitado é uma experiência religiosa, mas também uma contestação aos “senhores” desse mundo.

É importante recordar que no primeiro século da Era Cristã, os seguidores do Nazareno eram perseguidos por não adorarem um Imperador que era visto por muitos como representação dos deuses das tradições romanas.

Também no século IV, a conversão de Constantino ao cristianismo e a permissão para a prática cultual dos cristãos era um indicativo de que a relação entre religião e política possuem pontos diversos de convergência.

No período medieval, o dilema do cesaropapismo revelava uma disputa de poder na história do Ocidente e indicava a contínua intervenção dos Imperadores na vida religiosa. No mesmo período, veremos também a formação dos valores políticos oriundos de pontos elencados a partir das Sagradas Escrituras e da obra de Santo Tomás de Aquino no Século XIII.

Durante a Reforma Protestante, o surgimento de novos movimentos religiosos também revelavam práticas políticas e religiosas como indissociáveis.

No período posterior a Revolução Francesa (1789-1799), a vida política foi modificada. Surgem as repúblicas e o Estado Laico. Nesses estados, os religiosos ocuparão espaços a partir de novas práticas e posturas.

É interessante pensar que filósofos do tempo presente destacam a validade da presença dos cristãos no mundo da política. O filósofo alemão Jurgen Habermas, filósofo da Escola de Frankfurt,  ressalta a necessidade da presença dos cristãos nos mais diversos espaços do mundo secular e destaca o compromisso dos cristãos em construir uma civilização e constantemente transformá-la.

Desse modo, podemos dizer que os religiosos podem dialogar com o mundo da política e mesmo ocuparem espaços de representatividade considerando o bem comum e não apenas de seu seguimento religioso.

Certamente, religiosos podem ser sensíveis a questões sociais, humanitárias e econômicas e por essa razão, contribuem para a vida política.

Em alguns países, a experiência dos religiosos e sua defesa por Direitos humanos foi fundamental para pôr uma fim as ditaduras na América Latina. No caso, Americano, o Pastor Martin Luther King foi responsável por uma das maiores mudanças com relação as políticas nos Estados Unidos e a questão da segregação dos negros.

Os religiosos podem transformar a realidade e evitar o risco de “demonizar” a experiência política.

Podemos dizer também que a experiência dos religiosos pode fazer com que a realidade seja melhor conhecida graças as estruturas de suas experiências religiosas. Muitas denominações possuem comunidades em diversos territórios e por vezes, chegam onde o Estado não conseguiu se fazer presente.

Qual deve ser a participação dos cristãos na política à luz da Bíblia Sagrada?

A luz da Sagrada Escritura, os cristãos são convidados a fazer uma experiência de compromisso com a transformação do mundo. Jesus, no Evangelho, destaca que evitem-se práticas políticas onde as pessoas são idolatradas acentuando o valor da liberdade diante das realidades terrenas.

De acordo com os textos do Evangelho, política se faz a partir da experiência de serviço aos últimos, aos pobres e indefesos.

Assim, a política não é o espaço da vanglória, mas do contínuo exercício de cuidado e serviço as pessoas.

Os discípulos de Jesus possuíam a tentação de fazer da experiência de seguimento a Jesus uma experiências política nos moldes das desempenhadas na época do Império Romano. Jesus alerta seus seguidores e diz: “Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo.”

Na sua visão, há uma corrente política que se aproxima mais da cosmovisão cristã ou isso não existe?

Na verdade, ao longo dos séculos existiram tentativas de fazer com que os valores do cristianismo fossem colocados em sistemas políticos. Miraram na perspectiva cristã e acertaram num mundo repleto de desigualdades sociais e econômicas.

De acordo com a perspectiva cristã, há movimentos e mesmo partidos que podem conter elementos do cristianismo. Contudo, é muito arriscado, perigoso e impreciso afirmar que uma ideologia política, partido ou mesmo movimento possa conter a multiplicidade de perspectivas cristãs.

O cristianismo é uma experiência religiosa plural e com linhas doutrinárias distintas.

Na experiência católica russa, por exemplo, houve uma aproximação muito grande da religião com o Império Russo. Na tradição católica romana, durante todo o século XIX, houve uma série de condenações por parte da Igreja Católica à várias filosofias, ideologias e concepções políticas. Os papas Pio IX , Leão XIII, Pio X, Pio XI e Pio XII fizeram várias condenações com o propósito de orientar os fieis católicos quanto as questões políticas.

Tais posturas não é para desestimular os cristãos a encontrarem uma experiência política que seja conciliável com sua experiência religiosa. Pelo contrário, é para que como cristãos, possam fazer o discernimento acerca de seus partidos.

No presente momento, líderes cristãos como o Papa Francisco, expressam seu descontentamento com a cultura do ódio, com as desigualdades sociais e econômicas, e com a ausência de diálogo entre as pessoas.

Qual o papel do cristão numa sociedade polarizada?

Numa sociedade marcada por polarizações, o cristão deve ser visto como alguém que faz o justo discernimento das coisas. É importante destacar que tais polarizações por vezes não possuem base racional e por incrível que pareça o cristão pode retomar a importância do equilíbrio.

É evidente que o cristão também não devem se omitir diante das atrocidades cometidas por políticos e partidos. O cristão deve ser um sinal de coragem para transformar o mundo em que vivemos.

Dom Pedro Casaldáliga costumava dizer que, na dúvida, fique do lado dos pobres. Certamente, esse é um excelente indicativo para interpretarmos o justo exercício da política.

O cristão deve ser sinal de comunhão, mas há práticas políticas que são inconciliáveis com a fé professada. É preciso, em muitas ocasiões assumir uma postura profética, denunciando injustiças e anunciando dias melhores.

O cristão é alguém que deve envolver-se com a política e mesmo, com a política partidária, para, por meio da política, transformar a sociedade. Em tempos de polarização, o testemunho cristão também é desafiado. Há grupos que se autodenominam como os mais fieis e rejeitam outras experiências e comunidades cristãs. Em uma experiência polarizada como a nossa, temas que poderiam ser abordados facilmente nos ambientes eclesiais podem ser vistos como temas partidários.

Acredito que a relação Evangelho e vida torna-se cada vez mais necessária a partir desse momento em que vivemos. É preciso fazer política tendo os mesmos sentimentos de Cristo Jesus e superar a divisão.

Por fim, que critérios um cristão deve levar em conta ao escolher seu candidato?

No Brasil, muitos candidatos utilizam do discurso religioso para conquistar um maior número de cabos eleitorais. Tal fenômeno dificulta, muitas pessoas na hora da escolha. Muitos comportam-se durante as campanhas eleitorais como exímios religiosos, mas logo que assumem o mandato destroem o discurso com uma prática bem distante dos ensinamentos de Jesus.

Além disso, muitos candidatos também conhecem muito pouco o que suas denominações tratam acerca de questões políticas. No caso da tradição católica romana, há uma série de orientações que emergem das Escrituras, mas também da Doutrina Social da Igreja. Certamente, um critério importante é a questão das pautas que o candidato assume. O candidato não serve somente a sua denominação religiosa, mas a toda sociedade.

Assim, a escolha eleitoral deve ser movida a partir do bem comum e a elaboração de propostas concretas. Além disso, é necessário analisar os candidatos a partir de sua relação com a sociedade. No Estado Laico, a escolha deve ser mediada com base na razão e os cristãos devem rejeitar o discurso de intolerância e ódio, a mentira, o fake News e a manipulação das informações.

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