Por que não há ‘lugar de fala’ para cristãos no debate público?

“Da discussão nasce a luz”, já dizia o antigo provérbio. Apesar de verdadeira, esta premissa tem sido colocada de lado com o estabelecimento de uma nova forma de pensar o mundo: o chamado “lugar de fala”, que tem ganhado espaço no debate político. Na prática, este conceito aponta que não podemos opinar sobre algo que supostamente não temos familiaridade ou não sofremos na pele. Devemos “silenciar” para ouvir quem de fato precisa falar.

Se não sou negro, não posso opinar sobre racismo ou cotas. Se não sou mulher, deixo para elas a primazia da discussão sobre o aborto, pois não tenho útero. Se não sou muçulmano, logo não posso discutir a existência de uma islamofobia no Brasil. É uma premissa, convenhamos, aparentemente justa em seus fins.

Na prática, entretanto, essa novilingua política, por assim dizer, mostra-se uma falsa filosofia com ares de censura do interlocutor. Ou simplesmente ela não existe para todos os que sofrem algum tipo de preconceito. Já pararam para pensar, por exemplo, que nunca reivindicamos o “lugar de fala” para cristãos? Um exemplo cabal é a recente discussão sobre o fechamento dos templos e a forma como um cristão deve prestar seu culto. O assunto foi estabelecido após o decreto que determina o fechamento das igrejas por causa da pandemia.

Sem entrar no mérito do texto – que no caso da Paraíba creio ter sido elaborado com as melhores das intenções, de preservação da vida, sobretudo pelo equilíbrio e sensatez do governador João Azevedo -, é inegável que o preconceito aflorou nas redes sociais quando o tema veio à tona. Se houve uma preocupação estatal em relação ao vírus, isso se perdeu em meio a intolerância dos que são desprovidos de fé ou dos que não compartilham da mesma fé dos cristãos.

O debate que faço aqui não é essencialmente sobre a possibilidade do fechamento dos templos, como muitos religiosos fizeram espontaneamente e eu apoio suas livres iniciativas. Mas me refiro à atitude de alguns, de menosprezar a importância das celebrações  e das igrejas para os fiéis e para o funcionamento da sociedade. Faço uma crítica à atitude daqueles que querem tutelar a crença do outro, como déspotas.

Alegar, por exemplo, que as igrejas só querem “arrecadar”, é uma demonstração de ignorância, preconceito e discurso de quem não conhece o trabalho social realizado por essas instituições em comunidades, favelas e presídios brasileiros. Inclusive na pandemia. Nas ruas e em lugares onde o Estado muitos vezes não está presente.

O argumento segundo o qual cristãos não necessitam de ir à igreja com frequência e que, por isso, o fechamento “não vai fazer mal”, é igualmente presunçoso. Estamos falando de um direito histórico, sagrado e consagrado na Constituição e nas mais importantes legislações de Direitos Humanos pelo mundo. Inúmeras pesquisas científicas, aliás, atestam como este velho hábito está inerente à essência do ser “humano” e traz saúde mental, espiritual e física.

Onde está o lugar de fala para os cristãos?

Em tempos de pandemia, multas vezes a igreja é o único refúgio de quem em casa não tem o abrigo necessário, sobretudo nas periferias e nas comunidades. Igreja é lugar de mulheres vítimas de violência em casa, de crianças abusadas e famintas, de desesperançosos que buscam em seu Senhor uma saída quando ninguém lhes mostra um caminho. Igreja não é lugar apenas para “gritar e cantar”, como pensam os desavisados.

Dizer que fechar igrejas não é problema econômico e não causa desemprego, também é um argumento falso. Primeiro, porque a pauta da ‘economia’ nunca foi levada a sério quando o assunto é isolamento social. E depois porque, se o fosse, as igrejas também deveriam ser vistas por este viés. Os templos são como empresas: lá tem uma diarista que faz a limpeza, tem a vendedora da cantina, o fornecedor. Tem o vigilante, tem o pipoqueiro e o padeiro que vende o pão da Santa Ceia para milhares de pessoas. Igrejas também têm funcionários. O argumento da economia, nesse aspecto, também é inválido e falacioso.

Em relação à importância de se reunir para cristãos, está é, aliás, a essência do ‘ser Igreja’. E é claro que isso pode ser feito dentro da racionalidade. A pandemia é apenas um apêndice na história dos grandes desafios da era cristã, que sobreviveu a massacres, guerras e catástrofes. Se não há igreja, há o lar. Se não há casa, vão-se aos montes, e quando esses faltarem, as cavernas poderão ser novamente utilizadas. Só não podemos minimizar a importância do culto.

Reforço, por fim, que não comungo com o pensamento dos que minimizam a gravidade do problema que vivenciamos. Não desmereço a importância das normas estabelecidas para combater o vírus. Pelo contrário, ‘milito’ diariamente em prol de uma sociedade consciente. Nego o negacionistas e rechaço seus pensamentos.

Eu, por exemplo, há um ano não piso na congregação do bairro – em nome dos idosos que lá estão, mas fui algumas vezes a um templo maior, onde pude cumprir protocolos devidos. O cristão deve ser responsável, mas ao mesmo tempo não deve silenciar quando ouvir ataques gratuitos à fé dos seus iguais em nome de um suposto “bem” que incrédulos dizem ter.

As igrejas são importantes, sim. Elas são o hospital espiritual de muitos brasileiros que buscam curar feridas para as quais a medicina não tem cura. E é bom que os cultos e missas possam voltar a atender esses pacientes de dupla cidadania. Com fé, mas também com com prudência, cautela e respeito, marcas históricas dos nazarenos.

Termino com a mesma pergunta que faço no título desta publicação. Por que, afinal, negam o “lugar de fala” a esse “povo barulhento” que apenas quer se reunir para cultuar ao seu Cristo?

Felipe Nunes – jornalista, repórter, mestre em jornalismo.

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