Hugo Motta articula megabloco na Câmara e pode tirar do PL prioridade na escolha de comissões

Publicado por: redacao em

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), articula a formação de um megabloco parlamentar para fortalecer sua reeleição ao comando da Casa. A composição reúne dez partidos do Centrão, três siglas de esquerda — PDT, PSB e PV — e pode contar também com o apoio do PT. Se confirmada, a aliança poderá alterar a distribuição de espaços estratégicos no Legislativo e reduzir a influência do PL, que elegeu a maior bancada partidária, com 121 deputados.

Pelas regras da Câmara, a distribuição das presidências das comissões e das vagas da Mesa Diretora segue critérios de proporcionalidade. Em situações sem blocos parlamentares, os partidos com as maiores bancadas têm prioridade na escolha dos espaços. Com a formação de um bloco amplo, porém, o cálculo passa a considerar o tamanho do grupo, o que pode beneficiar as legendas que integram a articulação de Motta.

Nesse cenário, o PL poderia perder a preferência nas primeiras escolhas das comissões. Simulações elaboradas por técnicos do Congresso indicam que, caso o bloco reúna pelo menos 17 partidos, as 15 primeiras indicações para comandar colegiados ficariam com o PT ou com legendas do Centrão. O partido de Jair Bolsonaro passaria a ocupar a 16ª posição na ordem de escolha, embora ainda pudesse ficar com sete comissões.

A mudança pode afetar os planos de parlamentares do PL que pretendem assumir postos de destaque. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, já manifestou interesse em presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), considerada uma das mais importantes da Câmara.

A projeção leva em conta o apoio de PSD, Republicanos, MDB, Podemos, PSB e PDT, além das federações União Brasil-PP, PSDB-Cidadania e PRD-Solidariedade. Também considera a possível entrada das federações PT-PCdoB-PV e PSOL-Rede, cujas posições ainda dependem de definições políticas.

O PT sinaliza disposição para apoiar a reeleição de Motta, mas deve formalizar sua decisão após as eleições presidenciais. Deputados como Rubens Pereira Júnior (PT-MA), Alencar Santana (PT-SP) e Carlos Zarattini (PT-SP) já indicaram que pretendem trabalhar para que a bancada petista integre a articulação.

A federação PSOL-Rede, por sua vez, ainda discute se participará do bloco. Entre os fatores considerados está a proposta defendida por setores do Centrão de substituir o atual sistema eleitoral proporcional pelo distrital misto. O PSOL se opõe à mudança por avaliar que o modelo poderia prejudicar o desempenho da legenda em alguns estados.

Nos bastidores, integrantes do PL avaliam que a estratégia de Motta pode pressionar o partido a aderir ao megabloco. Caso permaneça isolado, a legenda corre o risco de perder espaço nas negociações. Se entrar na aliança, poderá usar o tamanho de sua bancada para assegurar maior influência na distribuição dos cargos.

A decisão, no entanto, ainda não foi tomada. Neste momento, o PL também concentra esforços na disputa pela presidência do Senado, onde pretende enfrentar o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

Lideranças do Centrão avaliam que o PL antecipou suas pretensões ao sinalizar interesse em comandar simultaneamente a Câmara e o Senado. Após o primeiro turno das eleições, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o Congresso seria “muito mais à direita do que ele é hoje” e declarou que haveria maioria para eleger os presidentes das duas Casas.

As declarações teriam acelerado a articulação de Motta para garantir sua permanência no comando da Câmara. Entre os instrumentos de negociação estão a distribuição de cargos na Mesa Diretora e nas comissões, a escolha de relatores para propostas legislativas, a discussão sobre emendas parlamentares e a próxima vaga aberta no Tribunal de Contas da União (TCU).

Para técnicos que acompanham as negociações, a formação de um bloco numeroso aumenta o poder de atração da aliança e amplia o número de espaços que seus integrantes podem reivindicar prioritariamente. A mesma lógica vale para a composição da Mesa Diretora, responsável pela condução dos trabalhos legislativos e administrativos da Câmara.

A definição dependerá da formalização dos acordos no início da próxima legislatura. Até lá, a movimentação de Hugo Motta representa uma tentativa de consolidar apoio político, ampliar sua margem de negociação e limitar o risco de isolamento do PL na disputa pelos principais postos do Legislativo.

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