Em entrevista a Nonato Guedes, Yuri lança propostas e diz que ciclo socialista fracassou no Estado

Publicado por: redacao em

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O advogado e militante social Yuri Ezequiel, pré-candidato a governador da Paraíba pelo partido Unidade Popular, disse em entrevista exclusiva ao “Polêmica Paraíba” que o projeto de poder socialista fracassou no Estado, referindo-se ao ciclo de cerca de 16 anos liderado pelos ex-governadores Ricardo Coutinho e João Azevêdo. “A prova do fracasso é que eles não estão nesse projeto de disputa pela manutenção da hegemonia de poder”, alegou, referindo-se, também, à conexão de líderes do PSB com grupos políticos oligárquicos que se reproduzem na cena política estadual. Yuri queixou-se da ausência de políticas públicas estruturantes e de investimentos concretos para a melhoria das condições de vida da população e prometeu implantar um programa “revolucionário” caso seja vitorioso nas urnas.

Ele possui uma trajetória focada nos movimentos sociais e na representação estudantil. Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Paraíba e também em Direito, ganhou visibilidade com sua participação ativa em movimentos de moradia, sindicais e de defesa da juventude, sendo, também, presidente do diretório municipal da UP em João Pessoa. Atuou em várias mobilizações nacionais, como na greve da Educação, e foi candidato a prefeito da Capital em 2024, experiência que descreve como importante na sua biografia apesar do resultado adverso. Avalia que o principal problema da população estadual, hoje, é a geração de emprego e renda. “Na prática, temos um encolhimento da renda dos trabalhadores do nosso Estado”, frisou, citando números.

Acerca do governo do presidente Lula, comentou que ele fez vários compromissos com a classe trabalhadora no país inteiro e o balanço feito é que não alcançou as expectativas, embora a propaganda oficial revele que acabou a fome no Brasil, “omitindo o emprego informal, que cresceu absurdamente no nosso país e a realidade do custo da cesta básica, que é muito difícil para o povo sobreviver”. Como alternativa à reeleição do mandatário petista, a União Popular lançou a pré-candidatura da militante Samara Martins, que, conforme Yuri, já vem pontuando em todas as pesquisas, empatando com vários ex-governadores. De sua parte, se declara confiante com a receptividade que estaria alcançando em sua pré-campanha ao Palácio dos Despachos.

Yuri Ezequiel criticou as pré-candidaturas do governador Lucas Ribeiro, do PP, do senador Efraim Filho, do PL, e do ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, do MDB, e lamentou que o Partido dos Trabalhadores tenha fechado com a pré-candidatura de Lucas. Mas considera que o grande adversário a ser combatido é o bolsonarismo, que, na sua opinião, representa o fascismo e uma forma de retrocesso na conjuntura política nacional. “Estaremos na linha de frente contribuindo para acabar com o bolsonarismo”, enfatizou.

A ENTREVISTA:

Qual é o principal problema que a Paraíba enfrenta e que o senhor, caso eleito governador, pretende equacionar?

Sem dúvida nenhuma o principal problema da Paraíba hoje é a geração de emprego e renda. O Estado da Paraíba em 2024 teve um desenvolvimento do PIB de 8,8%, em 2025 de 5,5%, já com uma previsão positiva do PIB em 2026, entretanto, esta não é a realidade dos trabalhadores do nosso Estado, porque a renda per capita da Paraíba é inferior a um salário mínimo, é R$ 1.542,00. Então, na prática temos um encolhimento da renda dos trabalhadores que são aqueles que constroem o crescimento desse PIB. Então, essa desigualdade social é presente em dois aspectos, principalmente, no regional, com uma concentração de pelo menos 50% do PIB na Grande João Pessoa e o outro ponto é a política de lucros médios das empresas, tanto locais quanto do capital estrangeiro, bastante presente hoje no nosso território, o que gera essa contradição fundamental. Há um desenvolvimento do Estado mas não há um desenvolvimento dos trabalhadores que constroem este Estado.

E nesse ponto, o que o Estado pode fazer, sem prejudicar a iniciativa privada?

A nossa proposta central é o desenvolvimento econômico a partir do fomento das empresas públicas e das cooperativas de trabalhadores e operários. Nós queremos fortalecer as empresas públicas, a exemplo da Cagepa, estatal consolidada mas que vive esse processo da PPP (Parceria Público-Privada). Precisamos ter a Cagepa como um exemplo mas há outros casos importantes. O próprio desenvolvimento do Turismo, segmento que cresceu muito na Paraíba. A gente teve a PB Turismo na década de 80, que possuía vários hotéis e cumpriu um papel importante, e hoje, são mais de 14 mil leitos inaugurados através do Polo Turístico do Cabo Branco, mas nenhum desses é feito por cooperativa popular, ou por trabalhadores, mas, sim, por iniciativa do capital estrangeiro. É fundamental ter essa função das empresas públicas no fomento da expansão no Estado, o que não quer dizer que não se vá fortalecer a iniciativa privada. O que se quer dizer é que o papel do Estado tem que ser para promover a igualdade social e o desenvolvimento da renda. Só é possível esse desenvolvimento a partir do momento em que os trabalhadores tenham acesso aos meios de produção e isto só é possível através de uma cooperativa de trabalhadores ou através das empresas públicas. Hoje, no Estado, a construção civil equivale a praticamente 30% do setor industrial estadual. São mais de 35 mil trabalhadores. E o trabalhador da base da construção civil recebe hoje menos de R$ 1.900, que é o salário mínimo da categoria conforme acordo coletivo. Entretanto, o metro quadrado na Paraíba, da construção civil, é de aproximadamente R$ 1.900,00. Ou seja, o metro quadrado construído é o salário de 30 dias de um trabalhador. Então, há a necessidade de equilibrar essa questão no nosso Estado e, sem dúvida nenhuma, fomentar a economia e favorecer a própria iniciativa privada, porque a partir do momento em que temos uma renda maior dos trabalhadores da Paraíba consequentemente temos um crescimento do PIB e do desenvolvimento da iniciativa privada no Estado.

Qual é sua opinião sobre o ciclo de poder do PSB, um partido de esquerda, durante praticamente 16 anos, aqui na Paraíba?

Acho que a melhor resposta para essa pergunta é a sucessão do governo. 15 anos se passaram e não estão eles nesse projeto de disputa pela manutenção do poder na Paraíba. Acho que isso demonstra esse fracasso com relação a esse programa, do ponto de vista deles mas, também, do povo da Paraíba, que não aguenta mais ver essa realidade, que atravessa gerações e se mantém com os mesmos grupos na política da Paraíba. Poderia haver um processo de renovação por causa desse período que se viveu mas, na verdade, termina da forma que começou, com os mesmos nomes e sobrenomes governando o Estado e se colocando para tentar mais quatro anos. Então, o PSB cumpriu nesse período o mesmo processo de manutenção das oligarquias e da concentração do poder nas mesmas famílias – a família Ribeiro, a família Motta e Wanderley, a família Cunha Lima, as mesmas que se mantêm no poder há pelo menos 50 anos.

O senhor quer dizer que nas gestões específicas de Ricardo Coutinho e de João Azevêdo não houve avanços significativos para o Estado?

Acho que a resposta para esses “avanços” é a realidade hoje que vive o Estado da Paraíba. Em João Pessoa, por exemplo, quem mora numa comunidade com quatro cômodos está migrando para dois cômodos porque os aluguéis estão com valores absurdos devido à especulação imobiliária. Para o trabalhador que está tendo que viver essa realidade eu não tenho dúvidas de que os avanços não representam nada para ele. Mas, sem dúvida nenhuma, para os donos das construtoras, os donos dos hotéis, das empresas que investem capital estrangeiro na Paraíba houve ganhos importantes. Então, temos que debater qual Paraíba estamos falando – a Paraíba de fato, que vive com auxílios e complemento de renda através dos programas de transferência de renda ou estamos falando dos grandes capitalistas que a concentram a riqueza aqui dentro. Não tem como descolar a realidade dos dias atuais do nosso Estado com esse projeto de praticamente 16 anos do PSB na Paraíba.

A Paraíba mantém uma posição de equilíbrio fiscal-financeiro, segundo é atestado pela Secretaria do Tesouro Nacional. O senhor acha que essa situação de equilíbrio não levou o Estado a investir uma contrapartida em favor da população?

Este é o debate central, porque ao mesmo tempo em que eles dizem que a Paraíba tem um equilíbrio fiscal, nesse primeiro quadrimestre, do ponto de vista da Lei de Responsabilidade Fiscal a gente ultrapassou o número de contratados, acima do permitido. Lógico que precisa finalizar o ano de 2026 para fechar o balanço mas o primeiro quadrimestre mostrou que apenas a Paraíba e o Rio Grande do Norte ultrapassaram as recomendações dos Tribunais de Contas com relação a contratações. Essa questão do fluxo de caixa do governo da Paraíba se dá a duras penas do desenvolvimento social, porque ao mesmo tempo em que temos uma política de incentivo fiscal, com o ICMs, das empresas de transporte coletivo de João Pessoa, chega a 100%, a cessão de diversos espaços do Polo Turístico Cabo Branco para esse desenvolvimento. Do outro lado, vemos a ausência de políticas públicas que, de fato, incrementem a economia, porque não dá para falar em desenvolvimento do Estado, sem falar da situação dos professores, com um universo de 8 mil contratados de forma precária, recebendo menos do que o piso salarial do magistério e, em contrapartida, temos 4 mil no serviço público aguardando serem nomeados porque o Estado diz que não tem orçamento para fazer essas nomeações. Esta é uma contradição.

E em relação aos setores de Saúde e Segurança Pública?

Em relação à Saúde é necessário fazer um estudo do número de leitos no Estado que estão vinculados à iniciativa privada, a instituições, e é necessário que a gente faça o processo de substituição para leitos públicos. A Segurança Pública é um problema muito sério e nós, da Unidade Popular, fazemos a seguinte reflexão: do jeito que está hoje, não dá para continuar. A gente vê a criminalidade, vários ambientes do nosso Estado dominados pelo crime organizado e ao mesmo tempo a violência policial crescer de forma alarmante. O índice do Atlas da Segurança Pública demonstra que a Paraíba é o quarto Estado com maior número de mortes violentas oriundas da Polícia Militar. Não podemos continuar dessa forma, com medo do crime organizado, com medo da Polícia Militar nas comunidades. É isto que vem acontecendo. Precisamos aprofundar essa discussão, construir uma política de Segurança Pública que seja vinculada à Polícia Cidadã, além de investimentos que garantam a presença da Polícia nas comunidades não para assustar o jovem negro que está na periferia, mas, sim, para defender o direito do trabalhador e combater, sim, o crime organizado que não começa nas comunidades mas na movimentação do dinheiro do tráfico de drogas, como já foi comprovado pelas investigações, que vinculam o PCC, por exemplo, à Faria Lima. Então, esse crime organizado nós precisamos combater.

Sobre investimentos do governo João Azevêdo no interior, inclusive, com obras do Hospital de Emergência e Trauma do Sertão, qual é a sua opinião?

Sem dúvida nenhuma é fundamental levar a Saúde para as regiões da Paraíba. Nós temos Hospitais-referência como o Hospital Universitário em João Pessoa, que recebe pacientes de todo o Estado para fazer tratamento, o Napoleão Laureano também cumpre esse papel, então é fundamental investir em todas as regiões. Mas, insisto: precisamos fazer a discussão sobre recursos públicos, do SUS, ou seja, de leitos do SUS que estão sendo destinados para a iniciativa privada pela ausência da competência do Estado de conseguir garantir esses leitos públicos. Então, o leito público é mais barato do que o leito privado e é preciso parar de usar a Saúde como meio de transferência de recursos públicos para a iniciativa privada.

O senhor acha que o governo Lula correspondeu, neste mandato, com a Paraíba, em termos de investimentos estruturantes que ele chegou a prometer através do PAC?

O governo do presidente Lula fez vários compromissos com a classe trabalhadora no Brasil inteiro e a gente chega ao final desse processo fazendo um balanço que não alcançou as expectativas porque os números demonstram que acabou a fome no Brasil, que o emprego cresceu, o desemprego reduziu, mas não falam em emprego informal que cresceu absurdamente no nosso país, nem da realidade do custo da cesta básica, que é muito difícil para o povo sobreviver. O governo Lula tem responsabilidade com relação a isso, por isso, lançamos a candidatura da Samara Martins a presidente da República por acreditarmos na necessidade de uma alternativa ao governo do PT, que teve avanços, sim, mas que também cedeu ao Centrão, ao capital financeiro, à Faria Lima, a essa política de dominação das políticas públicas que está sendo colocada hoje, com o controle do capital financeiro, como é o caso do Banco Master, que liga diretamente diversos setores do Centrão a essa política que precisa ser combatida.

Quem é a candidata da Unidade Popular à Presidência da República?

Temos a companheira Samara Martins, que, com muito orgulho, é pré-candidata à Presidência e vem pontuando em todas as pesquisas, empatando com vários ex-governadores, mostrando a força do povo, mostrando que não tem mais voto de coronelismo, não tem mais dono do voto. A companheira Samara Martins mostra força nas ruas e que é possível, sim, construir uma alternativa socialista, ter um programa popular de esquerda revolucionário nestas eleições. É a única mulher que, de fato, defende um programa de interesse da classe trabalhadora.

Que chances o senhor vislumbra para sua candidatura ao governo do Estado diante de outras candidaturas mais fortes em termos de esquemas que estão colocadas?

Eu confesso que, a cada dia que passa, eu estou mais confiante. Porque as pessoas que nos encontram nas ruas falam na Unidade Popular, falam na nossa candidatura. É um desafio, lógico, mas, sem dúvida nenhuma, as lutas desenvolvidas no último período nos credenciam a disputar o Palácio dos Despachos e ter a confiança de que o povo da Paraíba busca uma alternativa. Temos uma história em inúmeras lutas sociais, inclusive, a luta pela moradia popular, que é uma prioridade, além de compromissos com as bandeiras das mulheres, dos setores populares. Estou muito confiante que temos chances de igual para igual.

Seu comentário sobre as pré-candidaturas de Cícero Lucena (MDB), Efraim Filho (PL) e Lucas Ribeiro (PP)…

Se essa pergunta me fosse feita em janeiro, eu diria que tudo é a mesma coisa. Em janeiro, Lucas e Cícero estavam no mesmo partido, Lucas e Efraim estavam na mesma futura federação. Então, não podemos ter projetos pessoais que estejam à frente dos interesses do povo, de propostas políticas e de programas para o Estado. Se eles estavam juntos até janeiro é porque, na verdade, são a mesma coisa. Daí a necessidade de uma alternativa política que não está nessas candidaturas, que já provaram que não são capazes de resolver os problemas da Paraíba. Cícero provou isto em João Pessoa, o Efraim provou no Congresso e o Lucas, em cem dias de governo, já demonstrou como é quando fez a PPP da Cagepa, nomeou vários ex-prefeitos e filhos de prefeitos para compor o projeto de poder das oligarquias locais. Eles podem ter sobrenomes diferentes mas representam a mesma proposta.

O senhor condena, então, a atitude do PT paraibano, que manifestou apoio à pré-candidatura de Lucas Ribeiro e está reivindicando a vice-governança na chapa?

É necessário dizer o que cada um é. De que vale você disputar uma vice-governança, apoiar essas candidaturas, mas no outro dia dizer que o partido do Lucas Ribeiro é o partido do Centrão, do Ciro Nogueira, e que atrapalha o governo Lula e que está junto com o bolsonarismo? Quem tem que responder não sou eu, mas o PT: como é possível ter uma posição no Congresso e outra posição aqui na Paraíba? A verdade é que os interesses pessoais, em algum momento, parecem que falam mais alto. Não basta usar vermelho e dizer que é de esquerda, é preciso ser consequente nestas eleições. E as eleições estão mostrando na Paraíba quem é consequente com relação a programa e à luta popular. Não dá mais para a gente não falar da luta das questões que estão colocadas. E essa luta é fundamental nos debates. Quem vai decidir é o povo, mas vamos ter uma surpresa com a vitória da Unidade Popular.

A UP vai abrir espaço para, também, combater o bolsonarismo?

Eu não tenho dúvidas de que estas eleições vão acabar de vez com o bolsonarismo, e nisso estamos lado a lado com o PT. Então, todos os progressistas de esquerda, radicais, revolucionários, como nós, defendem a mesma coisa que é acabar de vez com esse mal, que é o bolsonarismo, que é o fascismo, que são esses fantoches que defendem os interesses dos Estados Unidos contra o Brasil. Precisamos ter um governo forte para enfrentar os Estados Unidos, que já interferem no Brasil. Este é um momento decisivo no processo.

O senhor foi candidato a prefeito de João Pessoa em 2024. Como foi essa experiência?

Foi uma experiência extremamente positiva, numa eleição muito dura que a gente disputou por várias questões, mas sem dúvida nenhuma a resposta das ruas, de cada panfletagem, de cada comunidade que a gente visitava, era que as pessoas notavam ser necessário construir uma alternativa política, que é a partir da Unidade Popular. Aquele sentimento nos deu esperança de que é possível, sim, construir uma nova Paraíba, uma nova cidade de João Pessoa. A eleição de 2024 faz parte desse processo e sem dúvida nenhuma a Unidade Popular, com seus núcleos de base, revela-se um partido de ação na vida dos pessoenses e paraibanos. A gente acredita que em 2026 o resultado será diferente: vitória nas urnas e vitória popular na Paraíba.

Como o senhor vê o avanço da direita em colégios eleitorais influentes como João Pessoa e Campina Grande?

É uma resposta dura de se dar, sendo muito honesto, mas o avanço da direita vem do recuo da esquerda. E nós precisamos dar essa resposta. A Unidade Popular está aqui justamente para disputar o voto a voto, da juventude das escolas, contra a infiltração da direita, o voto das mulheres. Precisamos fazer o debate da cultura que tentam colocar dentro das escolas, constituindo retrocesso, fazer o debate no movimento operário, em cada fábrica, sobre a escala 6×1 e contra as tentativas de rasgar a CLT. Então, é preciso colocar a nu a direita e mostrar suas contradições; se dizem defensores do Brasil, como o deputado Cabo Gilberto Silva, mas só defendem interesses próprios e fazem do povo paraibano massa de manobra para estarem lá no Congresso defendendo o capital estrangeiro. Vamos enfrentar a direita e derrotar os fascistas, na Paraíba e no Brasil.

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