Azevêdo quer revisão das emendas e Senado mais perto do povo

Publicado por: redacao em

Nonato Guedes

Numa entrevista exclusiva ao “Polêmica Paraíba”, o ex-governador João Azevêdo (PSB), pré-candidato ao Senado, avaliou que defenderá, caso venha a ser eleito, uma revisão dos critérios sobre destinação de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares, para corrigir distorções que acabam prejudicando a maioria da população. Ele adverte, também, que parlamentares devem voltar a discutir os grandes problemas nacionais, evitando preocupar-se apenas com a questão das emendas. João Azevêdo abre um ciclo de entrevistas do “Polêmica Paraíba” com os pré-candidatos às duas cadeiras no Senado Federal em jogo no pleito deste ano.

O ex-governador anunciou o desejo de priorizar sua atuação, numa eventual vitória ao Senado, nas áreas da Ciência e Tecnologia, com foco centrado, também, em propostas para a redução das desigualdades sociais e para a defesa de bandeiras de interesse do Nordeste, a partir da análise otimista de que a região superou adversidades históricas e atualmente se coloca num patamar favorável cada vez mais ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida dos habitantes.

 Na entrevista, João Azevêdo disse que não vê problemas para o presidente Lula (PT) no apoio de três pré-candidatos ao Senado na Paraíba – ele, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley, do Republicanos, e o senador Veneziano Vital do Rêgo, do MDB. Entende que isto contribuirá para reforçar substancialmente a campanha do mandatário à reeleição no Estado e referiu-se à posição externada pelo diretório regional do PT em apoio à pré-candidatura do governador Lucas Ribeiro (Progressistas) ao Executivo. Falou que esteve com Lula em outras disputas eleitorais e que o ex-prefeito Nabor Wanderley também assegurou compromisso de engajamento na campanha do petista.

João Azevêdo concedeu a entrevista no seu escritório político no Altiplano Cabo Branco, onde recebe lideranças municipais, parlamentares federais e estaduais, para acertar detalhes da programação de campanha a ser desencadeada. Ele se manifestou confiante na unidade do seu esquema, apesar das manobras divisionistas que, na sua opinião, são estimuladas frequentemente pela oposição para tentar tirar proveito e se fortalecer nas urnas. Negou que em algum momento, durante a campanha do ex-prefeito Cícero Lucena à reeleição na Capital, ele tenha lhe falado da decisão de ser candidato a governador do Estado nas eleições de outubro. Salientou que, pelo contrário, Lucena deixou claro que estava alinhado com o projeto político conduzido pelo então governador, posteriormente rompendo com o esquema e aliando-se ao agrupamento de oposição, que lhe ofereceu legenda para concorrer ao Palácio dos Despachos.

A ENTREVISTA:

Quais as propostas principais que o senhor pretende defender na tribuna do Senado, caso seja eleito?
    Eu, hoje, faço uma leitura não só do Senado mas da própria Câmara, que se faz necessário que o país volte a discutir os grandes temas de interesse da população. Nós estamos percebendo que nos últimos anos a maior parte do tempo gasta no Congresso tem sido no sentido de discutir poder, de disputa real de poder, e os grandes temas de interesse da sociedade estão ficando à margem dessa discussão. Qual é o grande plano de desenvolvimento, de projeto de futuro, de país que a gente tem? Eu não tenha visto essa discussão, eu não tenho escutado essa discussão. Quais são os grandes temas de interesse para a região Nordeste, que precisam estar na pauta? Quer sejam temas voltados para a nossa potencialidade, como é o caso das energias renováveis que poderão fazer com que a gente tenha condições de produzir uma energia limpa, como a energia de hidrogênio verde. A gente não está vendo isto na pauta. Todos os países do mundo têm uma matriz de energia a mais limpa possível. O Brasil tem essa real possibilidade e estamos vivendo, por incrível que pareça, por excesso de produção de energia limpa, uma crise dentro do sistema. São fábricas eólicas fechando, são empresas geradoras de energia renovável entrando em concordata, porque o modelo que o Brasil está adotando, na minha forma de ver, está equivocado. Então, isto precisa ser debatido. Imagine-se o potencial que a nossa região tem para ser, na verdade, o grande vetor de desenvolvimento do Nordeste com a produção de hidrogênio verde, a partir de uma energia que consegue produzir com a mais barata do mundo, que é a energia eólica. Não há discussão no Senado sobre a indústria do futuro, que está associada à Inteligência Artificial, à robótica, mas o nível é muito maior do que o que se escuta hoje. E se as indústrias não se envolverem no processo para fazer com que cada vez mais a tecnologia, a Inteligência Artificial, a computação quântica, na qual a Paraíba será pioneira, seja uma coisa do seu dia a dia, nós ficaremos para trás em termos de competitividade. O que se viu recentemente no Congresso não foi a discussão dessas pautas, mas sobre a indicação de alguém para o Supremo Tribunal Federal, que mobilizou todo mundo numa disputa meramente de poder. Isto não interessa para ninguém, e eu quero ser porta-voz dos grandes projetos de desenvolvimento para a Paraíba, para a região Nordeste e, naturalmente, possam replicar para o país. Mas o meu foco como paraibano é ser esse elemento de ligação. Gostaria, como senador, caso Deus e o povo da Paraíba me deem essa oportunidade, focar na área de Ciência e Tecnologia, que é extremamente importante.

    O senhor foi um dos expoentes do Consórcio Nordeste. Qual é sua avaliação, hoje, do Consórcio? Acha que ele perdeu força ou ainda é um instrumento de reivindicação muito forte para a região?

      Eu acho que o Consórcio tem um papel extremamente importante no desenvolvimento da região, como órgão de representação de toda essa região. Até porque você só promove o desenvolvimento de uma região se tiver investimento. 0 Nordeste, todas as vezes, ficava à margem, com um volume muito menor de investimento, comparativamente com outras regiões do Brasil. Então houve uma chamada para apresentação de projetos, no valor de 6 bilhões de reais aproximadamente, e quando nós fechamos e cada Estado apresentou seus projetos, chegou praticamente a 30 bilhões de reais. Foi o valor que ficou agora definido para beneficiar os Estados do Nordeste. E quem capitaneou isso foi o Consórcio Nordeste. Outra coisa que precisa ser entendida é que o Consórcio Nordeste abre portas. Recentemente o Consórcio promoveu uma viagem onde os Estados apresentam suas potencialidades, na Arábia Saudita. Isto tudo são ações efetivas do Consórcio Nordeste. É claro que, em momentos de dificuldade, a união se torna maior. Durante o período de 2019 a 2022 o Consórcio Nordeste se uniu muito mais, principalmente em função da pandemia de covid-19. O Consórcio se uniu e deu respostas efetivamente à sociedade, até em função da leitura que o governo Bolsonaro fazia do Consórcio Nordeste, que mesmo assim conseguiu enfrentar uma situação de extrema adversidade. Ele continua   muito forte e tem sido reforçado pelas iniciativas constantes do governo do presidente Lula.

      Qual a importância daquele projeto do telescópio Bingo na cidade de Aguiar?

        Veja bem: a USP (Universidade de São Paulo) produziu um projeto versando sobre esse radiotelescópio, que tem uma função científica relevante, embora algumas pessoas tenham levantado dúvidas sobre essa iniciativa, em função de um relatório que alguém fez nos Estados Unidos dizendo que o experimento serviria de base para a China, ou outros países. Mas não tem nada disso. Na verdade, é um projeto científico, e este equipamento coloca o Brasil numa condição extremamente privilegiada. Estará entre os poucos países do mundo que farão um tipo de pesquisas específicas sobre os aspectos da Lua, o potencial da Física, a própria origem do Universo, ou seja, são coisas que têm um lado científico definido e área de ação. Essas pesquisas, quando desenvolvidas, terminam desaguando no desenvolvimento de equipamentos e outros experimentos que possam ser contemplados em diversas áreas. Junto desse equipamento, estamos construindo o que chama de “Cidade da Astronomia”. Esse equipamento poderá ser utilizado para pesquisas, para oferecer bolsas de estudo, para oferecer oportunidades aos nossos estudantes, pesquisadores, cientistas, e ao mesmo tempo ser explorado turisticamente em qualquer lugar do mundo. A escolha por Aguiar tem a ver com a característica do local. Um equipamento como esse precisa estar situado em um lugar onde se tenha o mínimo de interferências eletromagnéticas, ou seja, um ambiente que não tenha torres de celular, nem avião passando por cima naquela rota, nenhum elemento que possa interferir no funcionamento desse equipamento. E, aí, quando foi levantado o tema, foram identificados dois lugares – um em São Paulo e outro aqui, que foi o escolhido pela sua posição estratégica de funcionamento do radiotelescópio. O governo do Estado foi chamado a participar do projeto para viabilizar os custos da sua implantação, e o equipamento já está sendo montado.

      O senhor tem uma formação executiva e sai, agora, para disputar um mandato legislativo. O senhor acha que está familiarizado com a atividade política-parlamentar?

       Com a atividade política, sim. É importante dizer que a experiência legislativa só será concretizada caso chegue ao Senado. Entretanto, não tenha dúvida nenhuma que a contribuição para determinado segmento, inclusive político, depende de uma experiência, e eu quero levar para o Senado 40 anos de experiência de gestor, de executivo. Essa experiência, obviamente, me ofereceu a oportunidade de conhecer o meu Estado e conhecer a realidade da minha região, Nordeste, além dos problemas que precisam ser olhados com um olhar mais atento. É isto o que quero levar para o Senado. A minha experiência como gestor, inegavelmente, é uma grande experiência. Mas tenho em vista que o Legislativo é completamente diferente do Executivo, com outras atribuições, mesmo hoje considerando-se essas coisas das emendas parlamentares, que dão ao congressista uma condição de chegar muito próximo aos municípios com suporte, com ajuda. Eu acho que não é essa a função maior de um senador. Ele não pode ficar o tempo todo preocupado com emendas parlamentares.

        O senhor concorda que há, hoje, uma hipertrofia de poderes no país, com o Congresso tendo interferência direta na execução orçamentária sobre o Executivo? Como parlamentar, o que o senhor acha que pode fazer para restabelecer uma situação de equilíbrio institucional?

        Concordo que essa questão das emendas precisa ser rediscutida imediatamente. Entretanto, é importante entender que o maior problema, talvez, está na forma como hoje são utilizadas as emendas, e a causa parece ser a pulverização de recursos. E aí, é preciso entender que qualquer Estado, se receber um volume de recursos em determinada conta de qualquer setor da economia, terá que ser promovido desenvolvimento para todo o Estado. Imagine se todos os recursos destinados aos três senadores de um Estado, anualmente, fossem direcionados a algum setor, como o Turismo, se houvesse, é claro, consenso entre os três senadores. Essa união seria suficiente para transformar o setor do Turismo. Este ano, as emendas nossas vamos direcionar para que se resolva o problema de abastecimento d’agua – isto geraria uma transformação e os recursos seriam muito bem aplicados. A questão é que, infelizmente, hoje, se pulveriza os recursos, que muitas vezes são direcionados para pequenas obras pontuais que não atendem ao conjunto das demandas. Então, o que discuto são dois fatores; 1) o valor dos recursos nas mãos do Congresso, hoje em torno de R$ 50 bilhões 2) seja rediscutido o papel do Executivo, que tem o poder de restaurar o caráter público dos recursos orçamentários. Enfim, é preciso rediscutir a forma de como se usa os recursos do orçamento junto aos Estados.

     O que o senhor gostaria de ter feito nas duas gestões que não conseguiu viabilizar, por um motivo ou por outro?

         Na verdade, tem muita coisa. Nós avançamos de forma significativa, digo isto sem nenhuma vaidade, até porque não fiz sozinho, foi um time de governo, uma equipe inteira que permitiu que a gente colocasse a Paraíba nesse patamar. A Paraíba é hoje um Estado respeitado nacionalmente, o que só foi possível graças ao empenho de um conjunto muito grande de pessoas que se dedicaram por 24 horas ao projeto. Entretanto, sabemos dos grandes desafios que a Paraíba ainda tem pela frente, com todos os êxitos que foram alcançados. Justiça social, por exemplo. Pode parecer utopia, mas imagine o dia em que o cidadão puder colocar na mesa a comida graças ao suor do seu trabalho. A Paraíba conseguiu chegar a um patamar de desemprego de 5,6%, o menor índice de desemprego da história desde que o IBGE começou a contar, a medir. Nós temos, hoje, um índice que, para os padrões do Brasil, é quase pleno emprego. Imagine um empreendimento como o do Polo Turístico que vai gerar 20 mil empregos. Por isso, justiça social é fundamental, para que as pessoas possam ter independência, porque a partir daí até as decisões políticas serão mais tranquilas para serem tomadas. A Paraíba tem o menor índice de desigualdade e este foi o primeiro passo muito importante no caminho da redução das desigualdades. Somos o primeiro Estado em Índice de Progresso Social no Norte e Nordeste. O Estado conta com um ambiente de negócios propício para se investir. São os reflexos da transformação.

           Como está a unidade do seu esquema político para as eleições majoritárias de 2026 e, sobretudo, como anda a sua relação com o ex-prefeito de Patos, Nabor Wanderley, que também é pré-candidato ao Senado?

              A relação é extremamente tranquila. Nós temos maturidade suficiente, estamos vacinados para as ações que a própria oposição implanta, fomenta, tentando apostar em divisões. Existe um processo natural de conquista de votos ou de apoios, entretanto, as coisas são muito discutidas entre nós. E só há uma forma de nós termos uma vitória importante, elegendo Lucas governador e os dois senadores: é a unidade desse grupo. E com essa unidade nós vamos atingir esse resultado. E essa unidade passa, claro, por orientações internas, por discussões, por um projeto único de campanha que será feito. Quando a população do Estado entender que será muito importante para todo mundo ter o governador e dois senadores aliados, eu não tenho dúvidas de que esse projeto vai deslanchar. Nós temos muita tranquilidade, e estamos unidos em torno desse objetivo: eleger a chapa toda.

            Quando o senhor apoiou Cícero Lucena para prefeito da Capital, já sabia que ele seria candidato a governador?

              Não, de forma alguma. Isto não foi nem cogitado. Foi uma decisão pessoal, posterior, mas isto não foi colocado de forma nenhuma. Ao contrário, eu escutei várias vezes ele dizendo que o meu projeto seria o projeto dele.

                    Como o senhor acompanha esse imbróglio do apoio do presidente Lula a candidatos ao Senado na Paraíba? Existe, mesmo, a possibilidade dele apoiar três candidatos que concorrem a apenas duas vagas?

                      A resposta a essa pergunta está muito ligada à própria nota que o PT local soltou quando decidiu apoiar o projeto de Lucas para governador e que, num dos itens, coloca claramente que os dois senadores serão os senadores que apoiarem a reeleição do presidente Lula. O pré-candidato Nabor Wanderley tem dito claramente que dará esse apoio ao presidente. No nosso caso, também ninguém tem dúvidas em relação a isso, até porque já estive ao lado do presidente Lula em outras eleições, e tem um terceiro candidato que também dá apoio. Acho que é um problema bom para o presidente ter os três candidatos ao Senado o apoiando na eleição. Para o PT vai ser muito bom. Como ele vai operar a logística, é um problema dele.

              O senhor acredita piamente na reeleição do presidente Lula?

                   É um processo que precisa ser compreendido de uma forma ampla. Quem vai definir, na minha leitura, essas eleições? Não será a extrema-direita nem a extrema-esquerda. Será o centro. Então, é preciso que o PT e o presidente Lula abram literalmente o diálogo com pessoas que tenham posição de centro mas que sejam democráticas, porque existe um grupo de pessoas que estão no centro por crença, mas que não são extremistas. E que o diálogo tem que ser formado. Acho que o presidente Lula precisa atrair para si exatamente esse segmento de centro, que fará a diferença nas eleições.

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