
A jornalista e apresentadora paraibana Rachel Sheherazade, que tem circulado nos bastidores políticos como pré-candidata ao mandato de deputada federal pelo Estado de São Paulo, ganhou projeção como âncora do telejornal do SBT por emitir opiniões polêmicas sobre temas delicados como escândalos políticos e questões sociais. No livro “O Brasil Tem Cura”, lançado em 2015 e no qual faz uma reflexão sobre a conjuntura nacional, Sheherazade prega uma “revolução pelas urnas” e adverte que um país não muda se o eleitor não mudar. “O eleitor muda (…) quando toma consciência do seu poder de escolha, da capacidade de transformação que seu voto possui, quando passa a enxergar o país e o destino dos cidadãos como um compromisso de cada um (…) quando se convence que voto não se vende e que cargo político não se negocia”, ponderou Sheherazade. Se for eleita este ano, Rachel deverá dividir espaço com outra paraibana ilustre – Luíza Erundina, 91 anos, deputada federal pelo PSOL, primeira mulher, nordestina e filiada ao PT, a se eleger prefeita de São Paulo, derrotando Paulo Maluf.
Rachel já foi alvo de interesse de diferentes legendas como o Cidadania e, mais recentemente, o PSD, que busca nomes de destaque na mídia para fortalecer suas nominatas em São Paulo. Se no passado adotou posições claramente conservadoras, ultimamente Sheherazade assumiu um perfil progressista. Antes de focar em novos rumos na política, a ex-âncora do SBT encerrou um longo litígio judicial contra a emissora paulista, no qual pedia reconhecimento de vínculo trabalhista. Ela foi “descoberta” por Sílvio Santos, em canal do Youtube, por causa de um comentário sobre carnaval de rua de João Pessoa na TV Tambaú, afiliada do SBT, que viralizou nas redes sociais, sendo chamada a trabalhar em São Paulo. Inicialmente teve liberdade para ser ao mesmo tempo apresentadora e comentarista, mas ao abordar temas políticos, contrariou interesses de líderes, grupos e partidos influentes, que pressionaram a emissora a se livrar da jornalista na sua bancada. Sílvio Santos chegou a dizer em seu programa dominical, na frente de Rachel, que ela fora contratada para ler as informações, não para emitir opiniões. A jornalista insistiu numa postura de confronto e foi demitida, dando partida a uma guerra trabalhista contra a estação que lhe projetou no país.
No último dia 8, em um vídeo publicado nas redes sociais, a comunicadora relembrou sua trajetória profissional e afirmou estar pronta para iniciar uma “nova caminhada”, motivada pelo desejo de contribuir com o país. No pronunciamento, relembrou episódios marcantes da carreira e afirmou ter enfrentado dificuldades por conta de suas posições públicas. “O meu desejo era transformar meu país através da informação. Eu tenho certeza que fiz minha parte. Como diz o evangelista, lutei o bom combate. Sofri assédio moral, assédio judicial, cancelamento. Quando não era possível fazer nada contra mim, fecharam as portas no jornalismo mas não me arrependo da minha luta”, declarou, identificando-se como a primeira mulher a falar de forma totalmente independente em rede nacional. “Paguei um preço alto mas sei que deixei um legado de que me orgulho muito. Preciso resgatar meu idealismo, preciso continuar sonhando e lutando pelo Brasil que eu quero deixar para quem vem depois de mim”, pontuou.
Nas reflexões feitas em seu livro, Rachel Sheherazade expressou que política é lugar de gente de bem: pessoas competentes, éticas, engajadas com a coletividade, comprometidas com a justiça, a ordem, a paz social, a democracia e o futuro da nação e que políticos existem para administrar cidades, Estados e o país, sendo eleitos para propor leis e representar a vontade da maioria da população, constituindo o elo entre as demandas do povo e o poder de ação do Estado. Mas lamentou: “Infelizmente, há muito tempo a política partidária tem sido motivo de gigantesca frustração para os eleitores brasileiros. Celeiro de escândalos recorrentes, nossa política, salvo exceções, se tornou um grande reduto de corruptos e corruptores, de toda sorte de desonestos e aproveitadores, demagogos, ineptos e aventureiros. São tantas as indignidades envolvendo gestores públicos e parlamentares que muitas vezes o brasileiro confunde o noticiário político com a folha policial”.
Nascida em João Pessoa, a jornalista observou que se a política partidária no Brasil tornou-se detestável, a culpa não é só do político que a exerce, mas também do cidadão que o elege. “Político e eleitor são como efeito e causa: um não existiria sem o outro”. Segundo ela, nunca é tarde para começar a fazer autocrítica e a necessária mea culpa para mudar o critério de voto e os rumos do Brasil. “Atitudes como renovar os quadros políticos podem transformar o país, pois é vital reciclar administradores públicos e políticos profissionais. Política não pode ser um feudo, pelo qual o poder passa de pai para filho, tampouco pode ser refúgio intocável de criminosos do colarinho branco, sempre em busca de um mandato para lhes garantir foro privilegiado. A prática política é como o sacerdócio, uma missão para aqueles homens e mulheres destinados a fazer a diferença no país, comprometidos, acima de tudo, com os interesses dos eleitores”. Concluiu explicando que, por meio do voto, a população também pode pressionar governos e parlamentos sempre que se sentir desprezada, desrespeitada e contrariada. De concreto, Sheherazade parte para um novo desafio em sua trajetória, que anota, também, participação tumultuada em “reality show”. O palco político não lhe será estranho, pelas polêmicas que possibilita, restando saber se ela tem votos para se eleger por São Paulo.
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