Marcondes fala dos “traumas” sofridos com sua filiação ao PDS – Por Nonato Guedes

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Foto: Reprodução/Redes Sociais

Numa entrevista exclusiva ao “Polêmica Paraíba”, o ex-senador Marcondes Gadelha (Podemos), que passou o bastão político para seu filho Leonardo Gadelha e outras pessoas da família, falou das experiências vividas no exercício da vida pública, tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal, e confessou que sofreu “traumas” com seu desligamento do MDB, em que integrava o “grupo autêntico” e sua filiação ao PDS, sucedâneo da Arena. Segundo ele, ex-companheiros de partido e resistência democrática lhe viraram as costas e um deles disse “ter nojo” de Gadelha. Ao mesmo tempo, enfrentou problemas de acomodação no novo ambiente, onde já existiam candidatos ao Senado, mandato que ele disputou e conquistou nas urnas em 1982.

Marcondes ressalta que a motivação da sua saída do MDB foi, mesmo, a aproximação do partido com seu então adversário político na Paraíba, Antônio Mariz, que fora da Arena e passou a ser adotado como candidato do PMDB em 1982. Na época estava surgindo o Partido dos Trabalhadores e Gadelha fez movimentos para ingressar na sigla, com acenos favoráveis de Lula, tendo sido vetado, porém, por membros do partido na Paraíba, que o chamaram de “burguês” e insinuaram que ele nunca vestira um macacão de operário, sendo um estranho à sigla. Gadelha cogitou abandonar a vida pública, mas refletiu que não sairia de cena “enxotado” e que defenderia seus brios. Foi quando recebeu um telefonema do presidente-general João Baptista Figueiredo, convidando-o a ingressar no PDS e ser candidato, com a alegação de3 que estava atendendo a bandeiras pelas quais Marcondes lutara, como anistia e eleições diretas.

“Ganhei a eleição, mas quando acabou a campanha eu estava arrasado, fisicamente, financeiramente e psicologicamente. Foi um momento muito difícil. Lembro que quando Ulysses Guimarães tomou conhecimento, foi me procurar pessoalmente. Ele chorou. No geral, tivemos uma grande vitória, mas em meio a um trauma que me marcou pelo resto da vida”, narrou Gadelha. Na entrevista, Marcondes fala, igualmente, de divergências com a deputada federal Lúcia Braga e da reaproximação com Antônio Mariz, por ocasião da eleição deste ao governo do Estado em 1994. Mariz convidou Marcondes para secretário – e ele escolheu a Pasta da Agricultura, lembrando que este foi um instante de união das principais lideranças políticas que se enfrentaram em inúmeros embates na região de Sousa e no Estado.

A ENTREVISTA:

O senhor está passando o bastão político para seu filho, Leonardo, e para outras pessoas do seu grupo político. O que é fica como lembrança da sua militância política-parlamentar?

É verdade, estou passando o bastão para Leonardo, Lafayette, André, nossos sucessores com a sensação do dever cumprido. Eu passo o bastão com um certo orgulho, com aquela sensação que São Paulo declarava: “Combati o bom combate, cumpri a carreira e guardei a fé”. Acho que procedi dessa maneira, procurando os melhores princípios da política, da convivência democrática e do espírito público. E me envolvi com causas importantíssimas para o interesse do país, da Paraíba e da minha cidade de Sousa. Destaco, nessas ações, a luta contra a ditadura militar, que imperou de 1964 a 1988 quando veio a Constituinte e podemos dizer que o país entrou no Estado de Direito definitivo e sem risco qualquer de retrocesso. Dessa luta participei intensamente, junto com o grupo autêntico do MDB, em contraposição a outra parte da legenda, que era chamada de moderada. E havia diatribes intensas, disputas, era como se fôssemos adversários no mesmo teto. Foi uma luta muito intensa e muito dura, perdemos vários amigos pelo caminho, vários companheiros foram cassados, presos, banidos, torturados, e esse é um ponto que considero culminante da minha vida pública. Também lembraria a participação na Assembleia Nacional Constituinte, onde fui presidente de Comissão Temática e membro da Comissão de Sistematização. Pude apresentar matérias que considero de relevância extraordinária. Por exemplo: o parágrafo único do artigo quarto da Constituição, hoje, é de minha autoria. Trata que o Brasil se dispõe a formar uma Comunidade Latino-americana de Nações, e foi isto que permitiu a criação do Mercosul. Não vou me vangloriar e dizer que fui eu que criei; na verdade, eu copiei da Constituição do Peru, que já tinha um dispositivo parecido com esse. E por fim, destaco a minha luta pela transposição de águas do rio São Francisco, que considero o projeto mais importante do século 21, além de ser o princípio da redenção de toda a região, atingida pelos estragos da seca, para se projetar como uma região competitiva com melhoria, naturalmente, da qualidade de vida. Dediquei 25 anos da minha vida pública à causa da transposição das águas do rio São Francisco. Então, passo todo esse legado para essas novas gerações com a confiança na competência, na capacidade de cada um, no amor à política, no espírito público e no interesse pelo bem comum.

O senhor tem conhecimento se seu nome chegou a constar da lista de cassados no regime militar?

Eu vivia sempre com a sensação de que podia ser cassado a qualquer momento, mas graças a Deus isto não aconteceu. Mas pessoas muito próximas de mim foram cassadas, como o deputado Amaury Muller, do Rio Grande do Sul, padrinho do meu filho Leonardo, Alencar Furtado foi cassado, Chico Pinto foi preso porque fez um pronunciamento contra Pinochê. Em suma, perdemos pelo caminho vários colegas da resistência democrática. De minha parte, senti perseguição direta ou indireta com relação aos negócios do meu pai. Meu pai teve um crédito negado pelo Banco do Nordeste e fiquei sem entender porque ele era um empresário muito eficiente, moderno. Fomos a Fortaleza tentar falar com o presidente do Banco. Ele não nos recebeu. Mas tinha um parente da minha mãe, chamado David Benevides, que era um alto funcionário de lá, e eu indaguei a razão da negativa. Ele abriu a gaveta e puxou um discurso meu, que haviam mandado para ele. A repressão não podia ser em cima de mim e acabou atingindo meu pai.

O senhor teve uma atuação marcante na defesa dos Direitos Humanos, em plena ditadura.
Sim. Na época, todo um conjunto de direitos civis – do direito de voto ao direito de expressão e todas as liberdades cívicas, sofriam restrições. Eu lutei para evitar que essa situação continuasse, na certeza de que venceríamos, mais cedo ou mais tarde. E isso eventualmente aconteceu. A verdade é que em inúmeras situações esses direitos foram agredidos, com violência e intolerância absolutas do regime.

Como foi aquela sua guinada espetacular, em que deixa o MDB, onde teve uma trajetória combativa, e se filia ao PDS, sucedâneo da Arena, com o aval do presidente-general João Baptista Figueiredo?

O problema decorreu do fato de que o MDB, meu partido, no qual tive atividade intensa e me expus, lutando por princípios, inclusive, a eleição direta para governador de Estado, quando vem a primeira eleição direta o partido entrega a cabeça da chapa para meu adversário lá em Sousa, Antônio Mariz. Então, o partido lançou a candidatura de Mariz para governador. Eu não podia, evidentemente, chegar e apoiar porque, na prática, a vida é um fato local, e assim o povo não iria entender uma posição minha batendo palmas para Mariz. Foi dito que havia uma maneira de apaziguar, que seria colocar meu irmão Paulo como vice de Mariz. Eu concordei, Mariz também, mas passado algum tempo Humberto Lucena me procurou e disse que o entendimento feito não poderia prosperar porque alguns companheiros alegavam que os dois eram da mesma cidade. Ponderei, inutilmente, que não se estava discutindo geografia, mas, sim, uma questão de união dos contrários. Naquele momento estava surgindo o PT, que era o segundo partido de oposição, e eu tinha um relacionamento à distância com figuras do PT. Achei que seria uma boa opção, o Lula recebeu muito bem a ideia, mandou um emissário para providenciar minha filiação, mas no dia marcado para a filiação aparece uma matéria no “Correio da Paraíba”, assinada pelo secretário-geral do PT paraibano, José Calistrato, dizendo que não me aceitava porque eu era um burguês, nunca tinha vestido macacão de operário, meu pai era um latifundiário. Uma situação extremamente delicada, e eu passei a considerar a hipótese de deixar a política, de voltar para casa. Mas refleti: “Voltar até volto, mas se for pelos meus próprios pés. Agora, enxotado, não!”. O presidente Figueiredo soube dessa situação e mandou um recado dizendo que eu fosse lá conversar com ele. Então me disse: “Olha, Gadelha, todas as coisas pelas quais você lutou eu estou fazendo. Você queria a anistia, não era? Pronto, já foi concedida. A eleição direta está sendo restabelecida. Eu tenho o compromisso público – jurei e vou fazer deste País uma democracia, custe o que custar. Agora você sabe: estou tendo problemas dentro da minha tropa, uma resistência daqueles bolsões mais rígidos, que ficam provocando, jogando bomba para lá e para cá, e nós temos que aumentar o esquema de defesa dessa abertura democrática”. Acabei concordando, e entrei numa situação delicada. Passei a levar bordoada de todos os lados, a partir de colegas do grupo autêntico. Um deles chegou a dizer que estava com nojo de mim. E o pessoal da Arena, que passou a ser PDS, também não me recebia muito bem. Eles também tinham candidatos a senador e passaram a me hostilizar. Em todo caso, me mantive firme no meu propósito, fui à luta. Vim à Paraíba, expliquei a situação e o povo entendeu bem. Tentei abordar o assunto na Câmara. Um amigo meu disse que os meus amigos mais próximos estavam de faca e guardanapo para comer meu fígado porque não aceitavam minha atitude. E sugeriu que eu voltasse para a Paraíba e tratasse de ganhar a eleição porque, se fosse derrotado, o primeiro a cuspir na minha cara seria ele. O fato é que vim para a Paraíba, a luta foi extremamente difícil. Ganhei a eleição, claro, mas quando acabou a campanha eu estava arrasado, fisicamente, financeiramente e psicologicamente. Foi um momento muito difícil. Lembro que quando Ulysses Guimarães tomou conhecimento, foi me procurar pessoalmente. Ele chorou. No final, acabaram entendendo, mas a situação era tão sofrida que Paulo, meu irmão, que era deputado estadual, não concordou e acabou desistindo de candidatura. No geral, tivemos uma grande vitória, mas em meio a um trauma que me marcou pelo resto da vida.

Como o senhor compara o Congresso de hoje ao Parlamento de ontem, quando atuou como deputado federal e senador?

Vejo com uma certa tristeza a radiografia do Congresso, hoje. Infelizmente eu tenho que reconhecer que houve uma queda de nível impressionante no comportamento das pessoas. Naquele tempo se fazia política com princípios e com uma certa abnegação e espírito público. Hoje, imperam o pragmatismo exagerado, A Lei do Gérson, de querer levar vantagem em tudo, as pessoas procuram tirar partido em cada circunstância, um quadro realmente lamentável. Um exemplo disso estamos tendo com essa crise do Supremo Tribunal Federal. Na nossa época, o Supremo Tribunal era uma espécie de porta da esperança, uma luz no fim do túnel para todos nós. Agora, o próprio Tribunal está envolvido em falcatruas, em negócios ilícitos, imagine o que está acontecendo no meio político propriamente dito, com essas emendas impositivas que estão fazendo com que o repasse de dinheiro seja uma forma de apropriação ilícita, quando deveria servir ao interesse coletivo. Lamentavelmente, atende a interesses de grupos ou de indivíduos. Temos a esperança de que a cada eleição poderá haver uma renovação, uma mudança. Pode ser que com essas novas eleições tenhamos alguma coisa significativa para melhorar a qualidade do Legislativo e do Executivo, principalmente com a participação popular, já que agora o acesso à informação aumentou muito e pode ser que o próprio povo ajude a promover essas mudanças. Mas se deixar por conta da natureza dos indivíduos envolvidos no processo, eu sinto muito, mas não é uma boa expectativa.

A que o senhor atribui a derrota sofrida na disputa pelo governo do Estado em 1986 contra Tarcísio Burity?

Houve fatores negativos que ocorreram, lamentavelmente, com pessoas que estavam nos apoiando, e fez-se uma exploração sistemática por parte de alguns veículos de imprensa, a exemplo da morte de uma jovem que estava na companhia de um filho do nosso candidato a vice-governador Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Conseguimos superar e voltar à luta, mas quando já estava perto da eleição outro episódio foi registrado: os Gaudêncio, que até então estavam em cima do muro, resolveram descer do muro para o nosso lado, mas Manoel Gaudêncio queria que o anúncio fosse feito em Serra Branca, na sua região, e que chegássemos de helicóptero. De todo jeito, fomos. Havia uma aglomeração popular causada pela presença do helicóptero. O rotor de cima do helicóptero para, mas o da cauda fica girando. Então, a população veio para cima, e o primeiro que apareceu a hélice pegou e abriu a cabeça do sujeito, que morreu esguichando sangue. Quando estávamos saindo, a rádio Sociedade da Bahia já estava dizendo: “Senador Marcondes Gadelha, o senhor acha que a cabeça do povo é passarinho?”. Então, pensei: “Não tem jeito, Deus está contra nós”. Acho que foram esses dois episódios sangrentos que levaram à nossa derrota. Mas eu ia ganhar a eleição. E o grande aprendizado que tive foi que em política tudo é possível – tanto eu poderia ganhar a eleição como perder, como aconteceu, diante de situações que eu já tinha revertido.

Desde então o senhor não cogitou mais disputar o governo?

Cogitei, e fui muito estimulado por algumas pessoas a disputar o governo, mas tenho a impressão de que Wilson Braga não concordava e formou-se uma divisão no núcleo dirigente do partido e acabei não sendo candidato. Vou contar uma outra historinha. O nosso marqueteiro era Carlos Roberto de Oliveira, e estávamos discutindo o que fazer quando ocorreu a morte da moça. A ideia que ocorreu primeiro foi a de tirar Marcus Odilon da chapa. Aí perguntou-se quem iria amarrar o guizo no pescoço, e Carlos Roberto respondeu :”Deixa comigo”. Viajei ao interior e no retorno a João Pessoa, ao passar por uma esquina perto da rádio Tabajara tinha um outdoor bem grande, eu com Marcus Odilon. Fui tomar satisfação. “Que negócio é esse?”, perguntei, ao que Carlos respondeu: “Isso é psicológico, tu tá pensando que foi tu que matou, mas não foi”. Marcus Odilon era um excelente companheiro, mas o fato é que os episódios não ajudavam em nada a campanha.

E qual sua leitura da derrota para senador em 1990, quando o senhor tentou renovar o mandato e perdeu para Antônio Mariz?

É uma coisa muito desconfortável falar nisso, mas foi a deputada Lúcia Braga que causou o resultado, estabelecendo um racha dentro do partido e passou a criar toda sorte de obstáculos à minha candidatura. Se ela estava num palanque, eu não podia subir; se eu estivesse, ela não subia. Nas passeatas eu não podia ir ao lado de Wilson Braga, tinha que ir num carro atrás. Não tiro os méritos de Mariz, mas houve esses fatos. Tempos depois, em Brasília, ao se encontrar comigo, ela disse que queria pedir perdão. Eu disse que não precisava, que não sou de guardar rancor. Agora, Wilson foi várias vezes à minha casa para me levar para o palanque. Quando Lúcia foi candidata em 1994, eu fiquei com Antônio Mariz. Wilson foi na minha casa, pedir que “acabasse com isso”, mas respondi: “Eu não vou; posso até ir, se ela fizer uma retratação pública”. Ele conversou com ela, ela se recusou e acabei não indo. Mariz soube disso e me chamou para conversar, acabei apoiando Antônio Mariz. Foi quando tudo virou do avesso de novo.

De quem partiu a ideia da aproximação entre o senhor e Antônio Mariz?

Eu tenho a impressão de que essa ideia partiu do próprio Antônio Mariz, que se elegeu governador. Agora, o veículo, o emissário, foi o deputado Inaldo Leitão, que me procurou e fomos conversar fora da cidade de Sousa, na chácara de um amigo meu. Conversamos longamente e ele me convenceu com a seguinte tese: “Olha, você já foi candidato a governador e perdeu a eleição. Mariz já foi candidato e perdeu também. Ou seja, Sousa nunca teve um governador, porque vocês estavam sempre em campos opostos. Quem sabe se juntando os dois agora Sousa não eleva seu poder político?”. Então, ficou no ar a ideia de que, juntando os dois, Sousa poderia fazer um governador, o que realmente aconteceu. E, depois, ele procurou Mariz, que foi à minha casa, conversou com a minha mãe. A aproximação foi se intensificando, depois fiz campanha mais abertamente em favor dele, e quando terminou a eleição eu não me elegi deputado. Eu entrei tarde, e ele votou comigo. Foi a maior votação que obtive em Sousa. Havia gente do meu lado e do lado dele, que era contra, mas o somatório acabou sendo positivo. Passada a eleição, Mariz me chamou e contou que havia ido a Brasília sondar a possibilidade da minha indicação para um ministério. Afirmou que eu tinha história e envergadura para isso, mas não conseguira êxito. “Agora, no meu governo, você é quem escolhe o cargo que exercerá”. Eu falei que queria a Pasta da Agricultura, ele estranhou, disse que pensava numa pasta maior. Expliquei que quando a transposição do São Francisco chegasse, o uso das águas seria orientado por uma secretaria de Recursos Hídricos e disse-lhe que estava interessado em dar viabilidade a um projeto pelo qual lutei muito. Não chegou a tempo, mas, por causa disso, eu aceitei a secretaria de Agricultura e ele me concedeu na hora. Na saída, os jornalistas me indagaram que secretaria ocupar, e houve estranheza quando falei em Agricultura. Então, me perguntaram: “O que é que um médico vai fazer na Agricultura?”. Eu respondi: “Vou mostrar ao bicudo o que é bom para tosse”. Procurei me informar sobre questões ligadas ao setor e contribuir de alguma forma com o desenvolvimento do Estado.

Há esperança de mudança no modo de fazer política no Brasil?

Sim, sem nenhuma dúvida, há esperança. E há esperança por causa do nível maior de consciência política da população. A política vai melhorar, não por geração própria, mas em decorrência do nível de percepção da população.

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