
Casos de agressão e assédio contra mulheres seguem provocando indignação social, mas um fenômeno paralelo chama atenção e causa estranheza: após episódios de violência ganharem repercussão na mídia, os agressores acabam registrando aumento no número de seguidores nas redes sociais. A lógica do engajamento digital, muitas vezes dissociada de valores éticos, transforma denúncias graves em combustível para visibilidade.
Neste fim de semana, a Paraíba foi palco de mais um episódio que ilustra esse comportamento. Vídeos que circularam nas redes sociais mostram o cantor paraibano João Lima agredindo a esposa, a médica Raphaella Brilhante. As imagens geraram forte comoção, debates e repúdio público. Ainda assim, após o escândalo, o número de seguidores do cantor cresceu, movimento que revoltou internautas e reacendeu discussões sobre a responsabilidade do público e das plataformas digitais.
O caso não é isolado. Na semana passada, o “BBB 26” também foi marcado por uma polêmica envolvendo assédio. Pedro, ex-participante do reality, foi flagrado em imagens que levantaram acusações de comportamento inadequado dentro da casa. Mesmo diante da repercussão negativa, o perfil dele no Instagram registrou crescimento expressivo. Segundo apuração da revista Marie Claire, o número de seguidores saltou de 126 mil para 159 mil logo após a saída do programa.
O fenômeno dos agresssores digitais
Especialistas apontam que o fenômeno de agressores, influenciadores ou figuras públicas ganharem seguidores após denúncias de violência é real e já foi observado em outros episódios de grande repercussão nacional. Um dos exemplos mais citados é o do DJ Ivis, que em 2021 ganhou mais de 250 mil seguidores em poucos dias após a divulgação de vídeos em que aparecia agredindo a ex-esposa.
O aumento, no entanto, não significa necessariamente apoio explícito às agressões. Pesquisadores e analistas de comportamento digital explicam que parte desse crescimento está ligada à curiosidade, ao desejo de acompanhar os desdobramentos do caso ou até a uma espécie de “cancelamento invertido”, em que usuários seguem o perfil para vigiar, criticar ou cobrar posicionamentos. Ainda assim, o efeito prático é o mesmo: mais visibilidade, mais alcance e, em alguns casos, potencial de monetização futura.
Contradições e consequências na cultura digital
O fenômeno expõe uma contradição incômoda da cultura das redes sociais, em que algoritmos premiam o engajamento independentemente do conteúdo ou da gravidade dos fatos envolvidos. Para movimentos de defesa dos direitos das mulheres, a lógica é perversa. Enquanto vítimas lidam com traumas físicos e psicológicos, seus agressores seguem acumulando números, atenção e espaço público.
A discussão vai além dos casos individuais e levanta questionamentos sobre o papel do público, das plataformas digitais e da sociedade diante da violência de gênero. Até que ponto seguir, comentar e compartilhar não contribui para transformar a agressão em espetáculo? E como romper um ciclo em que a exposição, mesmo negativa, acaba beneficiando quem comete crimes?
O post Da agressão e do assédio ao engajamento: por que homens acusados de violência ganham seguidores nas redes sociais apareceu primeiro em Polêmica Paraíba.

