A vida, as lutas e o susto de existir – Por Joel Martins Cavalcante

Publicado por: redacao em

Voltei de São Paulo ontem, sábado, dia 14 de março. Fui para o Encontro Nacional de Comunicação da CUT, cheguei na quarta-feira, dia 11, e passei esses últimos dias mergulhado em debates, falas, trocas, estratégias, preocupações e esperanças — essa mistura tão própria de quem ainda acredita na luta coletiva, mesmo quando o mundo parece insistir no contrário.

Talvez seja o cansaço da viagem. Talvez seja o peso dos tempos. Talvez seja só março me lembrando que meu aniversário está logo ali, batendo na porta. Mas a verdade é que voltei mais pensativo do que cheguei.

A gente vive num mundo estranho. Ou talvez sempre tenha sido estranho, mas agora a estranheza vem com Wi-Fi, notificação e transmissão ao vivo.

O planeta segue em conflito. Guerras abertas, tensões geopolíticas, crises econômicas, gente poderosa brincando de mover fronteiras e destinos como se mexesse peças num tabuleiro. Trump, mais uma vez, ditando suas vontades e impondo os interesses dos Estados Unidos ao mundo, como se direito internacional fosse uma sugestão e não um princípio.

Aliás, sejamos honestos: faz tempo que o direito internacional virou peça decorativa. A ONU, coitada, anda sendo solenemente ignorada há décadas. Basta lembrar a Guerra do Iraque, no início dos anos 2000, quando Bush resolveu invadir um país sem a aprovação do Conselho de Segurança, e o mundo engoliu aquilo entre protestos e impotência.

Agora, além dos velhos impérios, temos os novos senhores do mundo: as big techs. Empresas privadas com mais poder do que muitos Estados nacionais, atravessando fronteiras, moldando comportamentos, sequestrando atenção, coletando dados, interferindo em democracias, redesenhando a vida pública e privada sem pedir licença.

A inteligência artificial chega prometendo maravilhas, mas também traz um gosto amargo: quem controla a tecnologia, controla muita coisa. E quase nunca é o povo.

No Brasil, a paisagem também não ajuda. A extrema-direita, que durante muito tempo parecia confinada ao esgoto da história, resolveu sair pelos bueiros, ocupar as ruas, as redes, os púlpitos e os parlamentos. O fundamentalismo religioso, sempre vestido de moral, quer impor sua visão de mundo a todo mundo, como se fé fosse instrumento de coerção e não de transcendência.

Nessa mesma semana, Erika Hilton — uma mulher que apresentou projetos em defesa das mulheres, da dignidade e dos direitos — foi atacada e rechaçada por muita gente simplesmente por assumir a Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados sendo uma mulher trans. É cruel, mas revelador. Não é sobre competência. Nunca foi. É sobre o ódio organizado tentando se passar por opinião.

Houve um tempo em que eu realmente acreditava que o mundo caminharia, ainda que lentamente, para algum tipo de paz. Não uma paz ingênua, perfeita, sem contradições. Mas um mundo menos brutal. Mais civilizado. Mais capaz de aprender com os próprios horrores. Hoje, essa ilusão morreu. Ou, no mínimo, está na UTI.

E foi justamente nesse sábado, depois do encerramento do encontro, quando eu e meu amigo Luciano íamos almoçar, atravessando a Praça da República, que o mundo me atravessou de outro jeito.

Olhei o celular e vi uma mensagem de Suedna.

A gente só foi conversar depois, quando cheguei num lugar seguro, mais tranquilo. E ali, no meio do caos urbano de São Paulo, no meio de uma semana intensa, no meio de um planeta em combustão, aconteceu uma dessas coisas silenciosas que ainda salvam o dia: uma conversa honesta.

Falamos sobre o susto que é existir hoje. Sobre as lutas. Sobre a vida. Sobre esse sentimento de que o mundo anda pesado demais. E, curiosamente, foi uma conversa mediada por uma tela que me fez sentir menos distante. O mundo virtual, com todas as suas armadilhas, às vezes também aproxima distâncias quilométricas. Às vezes, ele faz ponte. Nem tudo é ruído.

E foi ali, no meio daquela troca, que me veio um pensamento quase ancestral: no fundo, a saga humana continua a mesma de milhares de anos atrás.

A gente ainda luta, antes de tudo, para sobreviver.

Só mudaram as formas de perigo. Mudaram as ferramentas. Mudaram os cenários. Mas o núcleo central da existência continua assustadoramente parecido com o dos nossos ancestrais que viviam sob árvores, nas cavernas, atentos ao frio, à fome, à chuva, aos predadores.

É verdade: a gente sofisticou tudo. Criou tecnologia, ergueu cidades, inventou sistemas, algoritmos, satélites, inteligências artificiais, redes globais, mercados financeiros, parlamentos, exércitos digitais e crises em alta definição.

Mas, no fundo, seguimos lidando com as mesmas angústias básicas: sobreviver, encontrar pertencimento, ser amado, sentir-se seguro, ter algum sentido.

Talvez a grande diferença seja que antes os perigos eram mais visíveis. O frio. A fome. O animal à espreita. O inimigo com lança.

Hoje, muitos dos nossos predadores são invisíveis.

Ansiedade. Solidão. Pressão social. O medo de não dar conta. A sensação de inadequação. A mentira viralizada. O discurso de ódio travestido de liberdade. A exploração embalada como inovação. A violência que chega pelo feed. A desumanização em escala industrial.

A luta continua sendo profundamente humana. Só mudou o cenário.

E talvez seja isso que eu tenha trazido de São Paulo, mais do que as discussões sobre comunicação sindical, redes, disputa de narrativa e organização popular. Talvez eu tenha trazido de volta uma sensação mais nítida de que comunicar, hoje, também é um ato de resistência.

De que falar, escutar, construir vínculo, defender a verdade possível, enfrentar o cinismo e sustentar alguma ternura em tempos bárbaros é quase uma forma de militância existencial.

No fim das contas, talvez a gente siga lutando porque é isso que nos mantém vivos. Não só biologicamente. Mas humanamente.

E talvez esse meu tom de hoje, meio melancólico, meio indignado, meio esperançoso apesar de tudo… seja só a proximidade dos 40 anos me deixando assim.

Fonte: Joel Martins Cavalcanti
Créditos: Polêmica Paraíba

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